quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Armistice? ! Non!" "Capitulation?!" Oui !"



Graça Aranha em Paris


I n t e r m e z z o

“Armistice?! Non!” "Capitulation?! Oui!"


Ao término da I Guerra Mundial (1914-1918), Graça Aranha, autor de Canaã, membro da Academia Brasileira de Letras e que era, então, embaixador do Brasil na Holanda, encontra-se em Paris com Maurício de Medeiros (1885-1966), ensaísta, jornalista e psiquiatra, que entre outras obras deixou Idéias, Homens e Fatos, publicada em 1934, ano do falecimento do seu irmão, o refinado poeta pernambucano Medeiros e Albuquerque, e Inconsciente Diabólico. Maurício de Medeiros era carioca da gema. Foi ministro da Saúde em dois governos: de Nereu Ramos e de Juscelino Kubitschek.
Transpirava elegância, o testemunho de quantos com ele conviveram. Em seu discurso de posse na Academia, ocupando a cadeira nº 38, patronímica de Tobias Barreto, Maurício de Medeiros abre seu discurso rendendo sentida homenagem à memória de Medeiros e Albuquerque, irmão quase um pai, dizia. Maurício de Medeiros especializou-se em medicina psiquiátrica na França de 1906 a 1907.
Em Paris, outubro de 1918 desfolhava-se, a Prússia do Kaiser Guilherme II a descansar armas, e entre as forças aliadas corriam rumores de armistício em curto espaço de tempo. Os franceses, com os belgas, primando pela tradição de sempre perseguirem a vitória até o fim, forçam a retirada dos alemães de suas fronteiras.
Maurício de Medeiros, no ardor do discurso pronunciado na Casa de Machado de Assis, conta que, achando-se também Delgado de Carvalho, nessa ocasião, em Paris e por cultivar devotadamente a língua francesa para sair-se bem em sua cátedra e nas animadas e inteligentes papotages dos sofisticados cafés parisienses, a escrever em francês a la pata llana, como diriam os vizinhos madrilhenhos, esmerando-se, por igual, na pronúncia, descobre Graça Aranha a dobrar uma rua. Aranha era sua vítima preferida de pilhérias por causa do mal francês que ele falava, ao passo que escrevia nesse idioma com toda correção, o que gerava um enigma na ponta da orelha ferinamente atenta de Delgado.
Em 1916 saía em Paris um livro titulado O Plano Germanista Desmascarado, com prefácio no tom e tinta de Vive la France!... de Graça Aranha e que já no ano seguinte chegava, em português, às livrarias brasileiras.
E estava o autor de Canaã parlateando numa roda de conhecidos da Europa a respeito da Liga da Paz, a intelectualidade brasileira a manifestar-se por esse diapasão, com algumas ressalvas como Capistrano de Abreu, que se inclinava pela Alemanha do Kaiser, e o que poderia vir depois. Viria a Liga das Nações, no umbigo da II Grande Guerra.
Despede-se, pois, Delgado dos conhecidos sem saber que, discretamente, Aranha o estivera escutando atrás de uma árvore ou de algum outro obstáculo. Até que Delgado dele se aproxima, abrindo os braços: “Graça Aranha! Como você está falando bem o francês!” O diplomata Graça Aranha encolhe-se em sua timidez: “Mas eu estava falando era em holandês...”
E pensar que, na véspera, em discurso que ele principiara pausadamente, o fechava com firmes e empunhadas palavras de ordem:
“Armistice? Non! Capitulation? Oui!!”
Os franceses vão ao delírio, numa ovação que se prolongou por quase uma hora.

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