quinta-feira, 2 de julho de 2009

Do desembarque na Normandia ao mistério do "mar de lama"


in memoriam
Gilda Braga Linhares
Nelson Werneck Sodré
Tarcísio Tupinambá

parte I


Em junho de 2009, Estados Unidos, Inglaterra e Canadá comemoravam junto ao Monumento e Cemitério de Colleville-sur-Mer o 65º aniversário de um facto histórico levado ao ar e às impressoras do mundo ocidental, além das linhas de telégrafo, nas barras dos anos 40, como Dia D. Era o desembarque anglo-norte-americano e canadense na Normandia, que na visão de estrategistas do Leste Europeu fora precipitado. De todo modo, o Dia D entrou para a História militar do Ocidente como epicentro da Segunda Grande Guerra.

Ao discursar na cerimônia em memória dos mortos na Batalha da Normandia, ao Norte de Paris, o presidente Barack Obama demonstrou vivo reconhecimento pelo que esse conflito teria trazido para ambos os lados do Atlântico: o progresso ao longo do Século XX. Em verdade, o progresso para os países ricos, visto que os pobres, do lado Sul do Atlântico, consumando-se a predição ou intuição de Getúlio Vargas, então presidente do Estado Novo brasileiro, ficaram ao deus-dará na divisão dos espólios de guerra entre as potências vitoriosas.
O Brasil só deslanchou no pós-guerra à custa de arrastadas negociações, pouco éticas, por sinal, com os norte-americanos e os ingleses (ver parte II de Do desembarque na Normandia...), sem que lhe aparecesse outra alternativa, coerente com suas melhores tradições, para seguir em frente - fosse marcando passo - na retaguarda da civilização. Antes do Ciclo Vargas, o Brasil vivia ainda na Idade do Bicho da Seda.
E a versão que mais se aproxima da exatidão dos acontecimentos que se seguiram à ocupação de parte da França pelos nazis na década de 40 é a que sugere uma divisão de poderes em Paris entre a Alemanha, propriamente, e o regime de Vichy, a colaborar com os invasores. Estes, apoiados pela ultradireitista Accion Française de Charles Maurras, cujo lema era Família, Trabalho, Pátria. Numa projeção para o futuro, no Brasil seria, nos “anos de sufoco” da década de 60, a ultraconservadora TFP, sigla de Tradição, Família e Propriedade, a acobertar grandes latifundiários de pé contra trabalhadores rurais acusados de comunistas por reclamarem terras para plantarem. Ganharam os tefepistas, por isso, cadeiras no Congresso Nacional. Tendo avançado raízes a terras portenhas, a TFP se pôs do lado da Coroa britânica e seu apoio logístico – os Estados Unidos da América – na Guerra das Malvinas, publicando sucessivas matérias, pagas a peso de ouro, em periódicos argentinos, a classificar de comunistas os partidários da campanha “las Malvinas son argentinas”. Uma guerra patrocinada e abastecida pela OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, com a colaboração, nas sombras, do Chile de Pinochet, contra a soberania da República Argentina sobre as ilhas descobertas por marujos franceses. E muito antes de navegarem por lá os piratas de S.M. a Rainha dos Mares, ao contrário do que derrama a literatura anglo-estadunidense mundo em fora.
Em Colleville-sur-Mer, vem à tona a situação no Oriente Médio, tendo-se notado estreita afinidade de pensamentos entre Barack Obama e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em que “um Irã com armas nucleares é motivo de preocupação, não só para Israel e Estados Unidos, senão para toda a comunidade internacional”. Obama observou, porém, que sua administração queria “abordar esse problema mediante negociação com o regime de Teherã”. O presidente americano viu os frutos da II Grande Guerra em boa colheita, em sintonia com os anseios da Humanidade, sublinhando que o confronto de seis de junho de 1944 “por um pedaço de praia de só sete quilômetros de largura por três de extensão” fora determinante para que o mundo despertasse de um longo e extenuante pesadelo, o mais sombrio de todos os tempos. Verdade se diga, já quando as forças nazistas haviam deposto suas armas, rendendo-se aos soviéticos em Berlim.
A data de 6 de junho assinala, ademais, a chuva de jovens paraquedistas de um front ocidental improvisado, a cair sobre praias com seus botes, em águas gélidas da Normandia e na linha de fogo intermitente do inimigo, misturando-se às névoas desprendidas do espaço aéreo de uma Paris ocupada.
Acrescente-se que quando se deu o desembarque na Normandia as forças soviéticas reagiam estoicas, em seu próprio território, ao avanço dir-se-ia, contraditório em princípio, de feras acuadas, até as baterem, uma a uma, em sangrentos combates. Lê-se na Wikipédia, a Enciclopédia Livre, que a Batalha da Normandia “foi uma grande jogada política para manter a hegemonia ocidental na Europa, tendo em vista a iminente derrota alemã para o Exército Vermelho, que vinha derrotando os nazistas sucessivamente desde a famosa Batalha de Stalingrado”.
Portanto, bem à diferença do que a mídia norte-americana vem passando à opinião pública décadas a fio, a Batalha da Normandia pouco influiu na solução do conflito, servindo apenas como ponte referencial no episódio da libertação de Paris, inclusive pelo facto de o marechal Petain parecer mandar tanto ou mais que os titulares da ocupação de uma cidade praticamente dividida, ou repartida. E note-se que Hitler entrou em Paris como para emoldurar-se com o Arco do Triunfo.
O triunfo, entretanto, desenhava-se era nas neves russas que já se prenunciavam quando os generais do Fuhrer preparavam suas divisões para uma investida pretensamente conclusiva no verão. Quando as neves caíram como uma bênção e às avalanches sobre o front gigantesco que, margeando o rio Volga, as recebia quais reforços de tropas, soviéticas, muito bem treinadas e, sobretudo, acostumadas a duras intempéries.
Os alemães, enfiados em “simples uniformes de algodão”, conforme relatos apressados mas de todo confiáveis, extremamente dramáticos, feitos nos diários de guerra dos oficiais nazistas, entre eles von Friedrich Paulus (1890-1957), que comandou o 6º Exército do Terceiro Reich na Batalha de Stalingrado, a enfrentarem, centenas e centenas estirando-se congelados sobre neves glaciais, quedas de temperatura aproximadas dos 45 graus abaixo de zero!
Vem agora o presidente norte-americano declarar na celebração de Colleville-sur-Mer que “nenhum homem que tenha derramado seu sangue ou que tenha perdido um irmão pode dizer que a guerra é boa, porém todos sabemos que essa guerra foi essencial” (in El País, es.(6-6-2009). Refere-se, naturalmente, à guerra levada pelos Aliados do Ocidente até à metade do percurso mapeado a percevejos niquelados , até ao lançamento, pelos Estados Unidos, das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em resposta (!) ao ataque da aviação japonesa à base aérea estadunidense de Pearl Harbour.
Porque a chamada Grande Guerra Patriótica, a impulsada do Leste Europeu, culmina
com a rendição dos alemães aos soviéticos no coração de Berlim, seguida do hasteamento, no alto do imponente edifício do Reichtag, da bandeira a tremular com os símbolos da foice e do martelo. O sonho às avessas de Adolf Hitler, que sofria da miragem de lhe estenderem tapetes para sua entrada triunfal no Kremlin. Em linha doutrinária que, desatada de Washinton, à mira dos fortes Apache da logística do Pentágono, acaba afinando-se ao sonho americano de derrotar a URSS a socos de heróis de celulóide revelados pela Guerra Fria. Ou, expressamente, de infiltrações persistentes no sistema russo, a mesma tática adotada, em vários momentos da História, em países da América Latina e o Caribe. Sem falarmos nos horrendos crimes praticados no Vietnã, em outras insânias do imperialismo ocidental, na covarde destruição de Bagdá, um dos mais ricos acervos arquitetônicos e documentais da História da Humanidade, motivo de instigante e irretocável artigo de Mansour Challita publicado no Globo, do Rio de Janeiro, em 24 de fevereiro de 1991, tendo por título “Bagdá, a bela”.
Premiem-se, por instantes, com um passeio por este texto de Challita: (...)“Bagdá foi fundada em 762 nas duas margens do rio Tigre, a 450 quilômetros do Golfo Pérsico. Mas antes dela, a terra onde ela se situa já era palco de grandes civilizações, notadamente a Assíria e a Caldéia. A civilização assíria, talvez a mais antiga de todas (dizem as lendas que Assur, seu fundador, era neto de Noah) destacou-se pela força e a organização. E também pela cultura. A biblioteca particular do rei continha mais de 4.000 manuscritos, redigidos em caracteres cuneiformes.
A civilização caldéia distinguiu-se pelo seu culto à alegria de viver. Sua capital, Babilônia, é chamada a Paris do mundo antigo, porque, como Paris, era um centro de diletantismo e de divertimento. A mulher babilônica era a mais emancipada do Oriente. A rainha partilhava com o rei os encargos do governo. Vênus, adorada também lá, era representada sob a forma de uma mulher em pé sobre dois leões: a força submetida à beleza.
Quando Bagdá foi fundada pelo califa Al-Mansur herdava aquelas tradições. Sob o califa Harun Al-Rachid (768- 809) ela se tornou uma cidade única no mundo. Capital do império árabe e da cultura árabe, era ao mesmo tempo uma cidade rica, poderosa, culta, emancipada, alegre. Lá eram concentradas as mulheres mais lindas e os tesouros mais preciosos do mundo, e também os maiores poetas, escritores, músicos, arquitetos, matemáticos, médicos, astrônomos, tradutores.
Os califas eram protetores generosos das artes e das ciências. A primeira tradução de Aristóteles foi paga, seu peso, em diamantes. ‘As mil e uma noites’, cujo ambiente principal era a Bagdá de Harun Al-Rachid – refletiam nas suas histórias cheias de feiticeiros que descobrem em toda parte montes de ouro, prata, diamantes, pérolas - o luxo insuperável daquela metrópole” (...)

Descerrado todo um quadro de esplendor, num texto digno de figurar nas melhores antologias, sem omitir os períodos de invasões pelos bárbaros saqueadores a partir do Século XIII até chegar à Primeira Guerra Mundial, Mansour Challita passa às estrepolias do império da modernidade:
(...) “Desde então, e após uma época de colonização britânica (1917-1932) Bagdá tem tentado readquirir algo de seu antigo esplendor. Incentivou o artesanato de tapetes coloridos, que evocam a vida alegre de ‘As mil e uma noites’. Aproveitou suas riquezas petrolíferas para criar uma economia próspera. Edificou três universidades. Cuidou de seus museus onde as glórias do passado sonham com glórias futuras. Quis também ser uma potência militar e invadir seus vizinhos (esquecendo que isto não é permitido a todos).
Bagdá foi submetida dia e noite a uma chuva ininterrupta de bombas destrutivas que nem os mais macabros contos de terror anteciparam. Será dito um dia que o que os tártaros, mongóis e turcomanos não conseguiram destruir da bela Bagdá foi destruído pela maior democracia do Século XX em nome da justiça e da liberdade?”.

Em dezembro de 2006, Saddan Hussein é levado à forca no Iraque pelos Estados Unidos da América, que se mostravam dispostos a assenhorear-se até a última gota e a qualquer preço, como sempre foi do seu feitio agir, do petróleo no Oriente Médio. Uma execução estúpida, de uma covardia sem par, na qual o líder iraqueano dispensou a venda nos olhos, mirando de frente o carrasco. Ele reclamava julgamento, imparcial, num tribunal internacional, de que os Estados Unidos haviam logrado escapar, pelos crimes cometidos no Vietnã, os maiores de todos os tempos, apesar dos incansáveis esforços de Bertrand Russell para que ‘a maior democracia do Século XX’ fosse encaminhada ao banco de criminosos de guerra.
E, assim, se formou o Império Americano. Esquecendo-se apenas de pendurar o retrato de Adolf no Salão Oval da Casa Branca.
Não existindo mais União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, nem o Muro de Berlim, nem se tendo constituído uma nova potência, ou superpotência, mundial em condições de fazer face a um império emergido de um passado recente, a China a cumprir sua destinação enigmática, que diferença faria se descendentes ideológicos do Fuhrer se pusessem agora em marcha batida rumo a um sítio ideal? Talvez por isso a Rússia de Putin mantém os mísseis da antiga URSS não desativados mas, ao contrário, apontados para os nódulos nevrálgicos do Ocidente.
Estendam na parede do quartel-general o mapa do mundo, preguem alfinetes niquelados nas zonas de progressão castrense. Observem que em 1941 a Alemanha já havia tomado a Polônia e que suas presas subsequentes seriam a Tchecoslováquia, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a França, nesta ordem.
E, “apesar da derrota (para os russos, já em Berlim), os círculos militares da Alemanha não abdicaram dos seus sonhos doentios de conquista e domínio mundial (A Batalha de Stalingrado, Edições da Agência de Imprensa Novosti, Moscou). Os governos da Inglaterra, França e Estados Unidos acalentavam tais sonhos, pois consideravam o militarismo alemão como principal força de choque contra a União Soviética. Somente entre 1923 e 1929 a Alemanha recebeu cerca de 4 bilhões de dólares de empréstimos estrangeiros, dos quais mais da metade – 2,5 bilhões de dólares – foram obtidos nos Estados Unidos.(...) Estes elevados montantes permitiram aos militaristas alemães reerguer a sua indústria bélica e formar um vasto exército equipado segundo a última palavra da técnica”.

Isto significa que, caso os alemães tivessem chegado ao término da guerra com a força que lhes atribuía a Norteamerica, capaz de bater os russos, Washington e a Berlim do Terceiro Reich se teriam unido no combate, não ao terrorismo de após Guerra Fria - das brumas do Oriente Médio - mas ao comunismo, ou socialismo - tanto faz..

Os Estados Unidos mostraram, mais uma vez, as suas unhas fascistas no regime terrivelmente caricato do macarthismo, criado pelo senador republicano Joseph McCarthy e denominado pela grande e corajosa dramaturga judia Lillian Hellman de ‘a caça às bruxas’, título de um de um de seus livros, assim traduzido no Brasil do original Scoundrel Time, no qual ela relata, sem meias palavras, pífias acusações de agentes do comunismo internacional assacadas contra autores e artistas de Hollywood, a intelectuais de um modo geral da pátria de Lincoln. Lillian foi quem enfrentou cara a cara os inquisidores da Casa Branca. Não houve fogueira, mas cadeira elétrica na prisão de Sing-Sing para o casal Rosenberg, os judeus Julius e Ethel, acusados sem provas de passar segredos nucleares aos soviéticos.
E Lillian Hellman, cujas peças, várias premiadas, foram reunidas num volume por título The Collected Plays, escolhida por críticos de arte a Mulher do Ano em 1973, Medalha de Ouro para Drama, concedida pelo National Institute of Arts and Letters, entre muitas outras distinções, acaba camareira num hotel de Nova York.

"Armistice? ! Non!" "Capitulation?!" Oui !"



Graça Aranha em Paris


I n t e r m e z z o

“Armistice?! Non!” "Capitulation?! Oui!"


Ao término da I Guerra Mundial (1914-1918), Graça Aranha, autor de Canaã, membro da Academia Brasileira de Letras e que era, então, embaixador do Brasil na Holanda, encontra-se em Paris com Maurício de Medeiros (1885-1966), ensaísta, jornalista e psiquiatra, que entre outras obras deixou Idéias, Homens e Fatos, publicada em 1934, ano do falecimento do seu irmão, o refinado poeta pernambucano Medeiros e Albuquerque, e Inconsciente Diabólico. Maurício de Medeiros era carioca da gema. Foi ministro da Saúde em dois governos: de Nereu Ramos e de Juscelino Kubitschek.
Transpirava elegância, o testemunho de quantos com ele conviveram. Em seu discurso de posse na Academia, ocupando a cadeira nº 38, patronímica de Tobias Barreto, Maurício de Medeiros abre seu discurso rendendo sentida homenagem à memória de Medeiros e Albuquerque, irmão quase um pai, dizia. Maurício de Medeiros especializou-se em medicina psiquiátrica na França de 1906 a 1907.
Em Paris, outubro de 1918 desfolhava-se, a Prússia do Kaiser Guilherme II a descansar armas, e entre as forças aliadas corriam rumores de armistício em curto espaço de tempo. Os franceses, com os belgas, primando pela tradição de sempre perseguirem a vitória até o fim, forçam a retirada dos alemães de suas fronteiras.
Maurício de Medeiros, no ardor do discurso pronunciado na Casa de Machado de Assis, conta que, achando-se também Delgado de Carvalho, nessa ocasião, em Paris e por cultivar devotadamente a língua francesa para sair-se bem em sua cátedra e nas animadas e inteligentes papotages dos sofisticados cafés parisienses, a escrever em francês a la pata llana, como diriam os vizinhos madrilhenhos, esmerando-se, por igual, na pronúncia, descobre Graça Aranha a dobrar uma rua. Aranha era sua vítima preferida de pilhérias por causa do mal francês que ele falava, ao passo que escrevia nesse idioma com toda correção, o que gerava um enigma na ponta da orelha ferinamente atenta de Delgado.
Em 1916 saía em Paris um livro titulado O Plano Germanista Desmascarado, com prefácio no tom e tinta de Vive la France!... de Graça Aranha e que já no ano seguinte chegava, em português, às livrarias brasileiras.
E estava o autor de Canaã parlateando numa roda de conhecidos da Europa a respeito da Liga da Paz, a intelectualidade brasileira a manifestar-se por esse diapasão, com algumas ressalvas como Capistrano de Abreu, que se inclinava pela Alemanha do Kaiser, e o que poderia vir depois. Viria a Liga das Nações, no umbigo da II Grande Guerra.
Despede-se, pois, Delgado dos conhecidos sem saber que, discretamente, Aranha o estivera escutando atrás de uma árvore ou de algum outro obstáculo. Até que Delgado dele se aproxima, abrindo os braços: “Graça Aranha! Como você está falando bem o francês!” O diplomata Graça Aranha encolhe-se em sua timidez: “Mas eu estava falando era em holandês...”
E pensar que, na véspera, em discurso que ele principiara pausadamente, o fechava com firmes e empunhadas palavras de ordem:
“Armistice? Non! Capitulation? Oui!!”
Os franceses vão ao delírio, numa ovação que se prolongou por quase uma hora.

domingo, 21 de junho de 2009

Do desembarque na Normandia ao mistério do "mar de lama"


Bico de pena de J. C. Heitor


parte II
Lá por 1930 é semeado em partes da Europa o nazismo, pretensiosamente apresentando-se sob a capa de nacional-socialismo no propósito, é de supor, de tornar a suástica algo atraente ou que fosse assimilável a um povo em que a religiosidade sempre fora um traço marcante em suas caminhadas na História. A ideologia nazis se alastra rapidamente, Adolf Hitler, já em cena, se alça ao poder na Alemanha. Tinha-se passado um decênio da celebração do Tratado de Versalhes, terminada a I Guerra Mundial. Por força do Tratado, a Alemanha, derrotada, entrega Alsácia Lorena à França mais outros antigos domínios a vários países, como à Bélgica. O Führer do Terceiro Reich acalenta a miragem de uma “nova ordem” sobre a Europa a fim de mostrar ao mundo, assim imaginava, a “superioridade” germânica.
Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invade a Polônia. A França e a Comunidade das Nações respondem com declarações de guerra. E o jogo principiava... A América a desempenhar o papel de espécie de árbitro de futebol, a salvo de contusões, com o livro-caixa em mãos e o revólver de John Wayne a fumegar no Velho Oeste – derrubando índios aos trotes para deleite de cinéfilos ocidentais.
Na América do Sul, no pampa gaúcho, um mestre das cavalgadas que, no mínimo de sua capacidade perceptiva, parecia saber muito mais além de nossa dimensão – ler, por exemplo, bolas de cristal – a estudantada nas ruas aos gritos de ‘guerra! guerra!” nas cercanias do Palácio do Catete, a exigir a presença do Brasil no front Aliado, bem provável que se perguntasse, afinal: “O que podemos ganhar indo a essa guerra senão algumas medalhas?”

Era o presidente Getúlio Dornelles Vargas, preocupado com a indigência do Brasil em indústria pesada, ao tempo em que, abrindo-se um livro escolar, se lia, invariavelmente, como sendo uma de suas principais atividades econômicas, na Velha Província, a do bicho da seda! Foi daí que os nazis, através de emissários devidamente agalardoados, se abalam até Vargas, oferecendo-se para construir sua siderúrgica, em troca de apoio estratégico à Alemanha.
Vargas discursa como em um palco na forma de um tabuleiro de jogo de xadrez, ele já um lendário cavaleiro dos pampas de Sudamérica. De sorte que não lhe foi difícil distrair os alemães com alegres noitadas em teatros da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, às quais não faltaram as mais recém-chegadas mademoiselles de Paris, enquanto os norte-americanos contavam e recontavam os dólares disponíveis para a implantação da siderurgia brasileira, sem que chegassem ao fim das contas...
Em Washington, sopram aos ouvidos de Eisenhower o tititicado “namoro” entre Vargas e Hitler, inclusive que a fábrica Krupp, alemã, já se preparava para erguer o que deveria ser a menina-dos-olhos de Vargas.
Num estalar de dedos, o governo americano desce em terras brasílicas com todo um aparato industrial-militar e firma o compromisso de erguer a usina de Volta Redonda. Os alemães se retiram, não sem terem deixado a suástica gravada em portas de milhares de casas localizadas em zonas rurais da Velha Província. Na região de Cantagalo, Centro-Norte do Estado do Rio, há muitos anos, veio às mãos do autor deste pequeno ensaio a foto de larga suástica estampada à testa de uma dessas casas, de colonos brasileiros, de uma fazenda nas proximidades da divisa com Minas Gerais. Se bem que a imigração germânica enraizara-se mais para o Sul.
E só nas condições ajustadas com o governo americano, cedendo a Base Aérea de Natal, Rio Grande do Norte, às Forças Aliadas, uma vez garantida a construção da siderúrgica, o Brasil declara, finalmente, guerra à Alemanha.
Em meio aos bombardeios distantes e às notícias contraditórias provindas do front europeu, estressados por vararem noites em claro ouvindo grilos e esmagando borrachudos a sopapo, os americanos desembarcados em Natal não encontram outro meio de espairecer senão acompanhar os passos do rala-bucho, à época uma dança campestre bem típica do Norte e Nordeste do país. Para eles, tornava-se muito mais fácil designar a dança por uma expressão extra-caserna: “for all”, quer dizer “para todos”. Mas “for all” acaba popularizando-se, em bom português, malgrado a corruptela de origem, como forró.
Dos alicerces à “corrida do aço” – parecendo-me acordes de O Guarani de Carlos Gomes -- a Companhia Siderúrgica Nacional, a entrar em operações em 1946 após 5 anos em obras, logo se constituiu em motivo de justo orgulho para o povo brasileiro, durante décadas, até ser lançada à roda de privatizações impulsada nos entreatos dos governos Fernando Collor de Melo e Itamar Franco, dentro do Programa Nacional de Desestatização. Um programa tisnado com o sangue de três baixas de operários siderúrgicos em confronto com guardas de serviço na usina entregue por doação – como se expressava Hélio Fernandes em sua Tribuna da Imprensa -- à iniciativa privada. Fernando Henrique Cardoso emergia ministro da Fazenda. Era o cérebro do desmantelamento das empresas nacionais; seu feito mais notável, ou repulsivo, neste particular foi a privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Recorda-se que, ao se despedir do Senado a fim de assumir a presidência da República, Cardoso usou a tribuna para proclamar com a empáfia que lhe era peculiar “o fim da era Vargas”. Em seus delírios neronianos, chegou a maquinar a revogação sumária das Leis Trabalhistas, a pretexto de terem sido elas inspiradas em legislação de Benito Mussolini, aliado do Führer e do imperador Hiroíto. Ora! Seria o caso, então, de vetar-se aos quatro ventos toda a música legada por Wagner à sensibilidade de gregos e troianos...Sabendo-se que esse compositor alemão era o preferido de Adolf.
Ruminara também (!) a privatização do Banco do Brasil; seria por funcionar o clube do Bola Preta num sobrado em cima da agência central do banco, se bem que diferindo dela no expediente e com a entrada do lado?
Assim como procedera com os alemães e os estadunidenses, levando-os a um tabuleiro diplomático, para forjar o progresso nacional através de Volta Redonda, Getúlio Vargas negocia a derrogação de velhas concessões dadas, antes dele, à Inglaterra para exploração de ricos lençóis de minérios a se estenderem pelo vale do rio Doce. Derrogadas as concessões e, por consequência, restabelecido ao Brasil o direito natural de exploração de imensurável riqueza estratégica, até então em mãos estrangeiras, Vargas assina o decreto de criação da estatal Companhia Vale do Rio Doce, que muitos anos depois viria a sofrer o xeque-mate sobre as cinzas do mítico caudilho do pampa.
Os incidentes relacionados às vacilações de Vargas diante do problema das divisões territoriais já então projetadas para o pós-guerra, intuindo o presidente trabalhista que do conflito o Brasil pouco ou nenhum proveito teria, a não ser o cintilar do ardor patriótico, com todo o seu desvelo cívico e engajamento às forças das potências ocidentais que, pelo menos, se diziam democráticas, não o afastaram da convicção do cumprimento do dever de defender o Estado brasileiro e a democracia no mundo.
Criou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB) com o dístico “A cobra vai fumar”, vivo motivo de incentivo aos pracinhas. A “cobra’ salta às ruas numa marchinha carnavalesca cujo sabor era o dos morros cariocas: “Olha a cobra fumando, olha a cobra fumando... Olha a cobra, pessoal...!”
Vargas e seu inseparável havana no Catete e em sua fazenda no Rio Grande, em Itu, o chimarrão compartilhado numa roda de políticos e campeiros, e mais quem quisesse achegar-se, de cujos beiços, às vezes, deitavam histórias como a da mula-sem-cabeça, nas noites frias do “sur”. De um radinho de pilha escorria, entre uma e outra notícia da guerra, com Alvarenga & Ranchinho e seu violão: “Eu tenho uma mula preta... com sete palmos de altura”...
A glória das bombachas e do selim no auto-exílio de Itu, consolidada com o retorno triunfal ao governo da República através das eleições da década de 50, livres e democráticas. Subira ao palanque de campanha de Vargas, a seu lado, dando-lhe ardoroso e petriótico apoio, Luiz Carlos Prestes, por entender o “Cavaleiro da Esperança” que não havia outro candidato capaz de derrotar nas urnas as forças mais reacionárias e retrógadas em ebulição no país. Porém, o mais surpreendente, ou o inusitado, é que Getúlio Vargas, além de eleger-se presidente nessa ocasião, também se elegeu, dir-se-ia com o transbordo de votos, senador da República por várias unidades da Federação. O suficiente para credenciá-lo a levar avante o seu projeto de coroamento de uma luta que incluía todas as forças reconhecidas de esquerda, inclusive algumas de centro, ou de centro-esquerda, nacionalistas. Tratava-se do monopólio estatal do petróleo, em estudo, como base para a criação da Petrobras. Apesar da maioria acachapante de sufrágios obtida por Vargas nessas eleições, tendo derrotado o brigadeiro Eduardo Gomes, seu principal opositor no marco de toda a história eleitoral brasileira, forças externas começaram a pressioná-lo utilizando Carlos Lacerda, político de grande penetração popular, especialmente entre madames, as chamadas mal-amadas, afastado ainda moço dos quadros do Partido Comunista Brasileiro, para que o presidente recuasse de seus propósitos nacionalistas
A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial data de agosto de 1942. Em fevereiro de 45, Vargas pede urgência nos prazos para eleições gerais no país. Em 18 de janeiro de 1951, vitorioso nas urnas pelos trâmites democráticos, é proclamado presidente da República. Juntamente com Café Filho na vice-presidência. Mal envia mensagem ao Congresso visando atender ao clamor popular de que “o petróleo é nosso”, tem início a sua via-crucis. Não bastara o empenho do governo anterior, o do presidente Eurico Gaspar Dutra, em abrir alas no parlamento a um Estatuto do Petróleo que, se aprovado, iria permitir a exploração de lençóis petrolíferos nacionais por um oligopólio, o das conhecidas nos círculos diplomáticos e da imprensa especializada como “sete irmãs”, todas, companhias estrangeiras, cinco delas norte-americanas. O projeto desse estatuto não prosperou, no entanto, sendo torpedeado de chapa no Congresso.
Ainda em meio à polêmica sobre o estatuto que Dutra quis impor à nação, tendo carreado para o parlamento, na cauda de sua curiosa eleição, a nata, e alguns antônimos, do entreguismo nacional, graças ao apoio dado pelas costas à sua candidatura por Vargas, que se recolhera em Itu a fim de costurar a pretendida volta por cima ao poder, apoio logo transferido a partidos da oposição, a UDN em primeiro plano, a União Nacional dos Estudantes, a UNE, empunha a bandeira da campanha “O Petróleo é nosso”.
Formava-se o cerco aos partidários da flexibilização da política do petróleo no Brasil.
As forças externas eram poderosíssimas; à frente, a Standard Oil. Mas Vargas não se intimida: submete ao Congresso Nacional projeto de lei instituindo o monopólio estatal da pesquisa, lavra e refino do petróleo extraído de jazidas brasileiras e criando uma companhia 100% nacional para administrá-lo. O texto do velho caudilho agora carregado pelo povo recebe uma chusma de emendas parlamentares, porém só um substitutivo, ironicamente apresentado por um respeitável e vigilante prócer do udenismo, Bilac Pinto, integrante de um grupo parlamentar que desfilava na imprensa como “banda de música da UDN”, é acolhido no Congresso. E de bom grado. Inclusive, ou principalmente, no Catete: O presidente via a contribuição de um udenista do porte de Bilac Pinto como essencial ao aprimoramento e fechamento da proposição, sem que deixasse uma só porta aberta à gula de qualquer das “sete irmãs”.

A campanha pela efetiva emancipação do país, orientada do Clube Militar, próximo ao Senado Federal e à Cinelândia, e da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, na rua Araújo Porto Alegre, com a decidida participação da UNE, da antiga ABDE, Associação Brasileira de Escritores, e de outras instituições liberais, políticas e ideológicas, ganha as ruas, de pronto, com entusiamo e fervor patriótico.
Por essa época, em São Paulo, assediado por um repórter do “Diário da Manhã”, Getúlio Vargas vaticinava que não chegaria ao término do seu mandato. Muitos anos após a morte de Vargas, a sua sobrinha Yara Vargas, já como deputada pelo PDT à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, lia da tribuna aquela entrevista, que deve estar constando nos Anais do Palácio Tiradentes.
Em 3 de outubro de 1945, ele sancionava a famosa Lei 2004. Criava, deste modo, a Petróleo Brasileiro S/A – Petrobrás (à época, levava acento), empresa de propriedade e controle inteiramente nacionais, com participação majoritária da União, para exploração de todas as etapas de nossa indústria petrolífera, exceto a distribuição. Ouve-se pelo rádio, em todos os quadrantes do país, a declaração pausada de Vargas: “Constituída com capital, técnica e trabalho exclusivamente brasileiros, a Petrobras resulta de uma firme política nacionalista no terreno econômico. (...) É, portanto, com satisfação e orgulho que hoje sanciono o texto que, aprovado pelo poder legislativo, constitui novo marco de nossa independência econômica”. O marco anterior expressara-se na criação da Companhia Siderúrgica Nacional, seguindo-se a da Companhia Vale do Rio Doce, garroteada no governo Cardoso.
A Standard Oil sentiu-se ferida no seu interesse em explorar o petróleo brasileiro, dando-nos, não raro, a impressão de estar ela e não Vargas à frente do governo. Ccntrapondo a sua política assentada na Constituição da República à exercida sorrateiramente pela Standard Oil, o presidente lança petardos sucessivos, em discursos inflamados, contra o rolo compressor movido pelos aproveitadores internos e externos. Na prática, ele se faz oposição dentro do próprio contexto em que fora eleito. Prega o trabalhismo em último grau. Declara-se socialista. Prepara um governo para os trabalhadores. Num de seus discursos da época, ante a virulência cada vez maior da reação, disse textualmente em tom convocatório, dirigindo-se às classes trabalhadoras: “Amanhã, sereis o governo!”.
Acontece Toneleros, rua de Copacabana onde um major da Aeronáutica é morto a tiro, supostamente, no lugar do jornalista Carlos Lacerda, que estava a seu lado; o major Vaz achava-se fora do expediente normal no quartel. Um caso da competência da polícia civil mas que os inimigos do presidente preferiram entregar à justiça militar. Vargas, apesar do cheiro de pólvora de uma cilada que tinham armado para ele e que impregnara o Catete, se diz, ao que lhe parecia, cercado de “um mar de lama”. Este seu desabafo acaba sendo considerado pelos inimigos como importante peça processual capaz de “pendurá-lo”, de deixá-lo (sic) “apodrecer”, como era do desejo declarado de Lacerda, na alcunhada “república do Galeão” Gregório Fortunato, chefe da guarda do Catete, o “anjo negro”, companheiro de infância de Vargas, que o trouxera do Rio Grande, foi logo acusado de mandante do crime de Toneleros. David Nasser, repórter famoso por décadas, sempre escrevendo na revista O Cruzeiro, dos Diários e Emissoras Associados, a principal do país, também autor de um livro titulado Só o Meu Sangue é Alemão, procurou insistentemente tomar o depoimento de Gregório, que, acreditava-se, morreria se abrisse a boca. Pensava-se em revelações que, defendendo-se Gregório e a Vargas, envolveriam gente muito ligada a Lacerda, inclusive da Embaixada Americana, e ele próprio, caricaturado O Corvo no jornal Ultima Hora, de Samuel Wayner. E o “anjo negro” cai morto na prisão, assassinado, sem que tivesse aberto a boca. Perdurando até hoje o mistério do “mar de lama”.

Vargas já havia redigido a sua Carta-Testamento, nas vésperas da reunião ministerial da madrugada de 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, quando foi acordado em seus aposentos pelo irmão Benjamin para informá-lo de que estava deposto. O irmão se retira e o presidente, então, dá um tiro no peito.
Consumara-se o vaticínio?
Eu despertara com a notícia que me chegava através do rádio de um vizinho, transmitida por Heron Domingues, o Repórter Esso da Rádio Nacional, a puxar a voz embargada de emoção, pondo toda sua ênfase à leitura da Carta-Testamento, origem de um infarto fulminante que teria ele um pouco mais tarde, segundo amigos.
A morte de Vargas levantava a nação. Na rua do Passeio, defronte ao cinema Metro, eu sobraçava alguns jornais do dia quando passa pela minha cabeça um verso alexandrino da mitologia grega que, a meu ver, bem expressava o avanço devastador de Getúlio Vargas sobre a linha inimiga, de volta ao campo de batalha, com a lança de Aquiles e sua nova armadura – mandada fundir pela mãe Tétis, a deusa do mar: “...como um vento impetuoso que revolve as chamas”. Ele vencera a batalha, dir-se-ia em outro extremo da Vida.
Ouve-se o Hino Nacional. Entoado pelo caudal de estudantes, trabalhadores e profissionais liberais que, partindo da Candelária, toma toda a Avenida Rio Branco. Param na esquina com rua Santa Luzia. Alguém grita: “Onde fica a Embaixada Americana?!
“Lá!!” – apontam em direção de Santa Luzia, Calógeras e, finalmente, a Presidente Wilson. Marcham para lá. Em questão de minutos, o que se ouve da Cinelândia é uma azoada de balas disparadas de dentro da Embaixada dos Estados Unidos. Houve correria e não fiquei para trás. Estava sem a armadura de Aquiles. Nem dei conta de que os jornais que sobraçava haviam caído ao chão. Segui em frente pela rua do Passeio, sem destino, até deparar-me com um hotel a cerrar as portas, mas ainda a tempo de enfiar-me por baixo. Respirei. Um elevador se abriu, dele saindo, tranquila, serelepe, uma senhora com vistoso chapéu, alinhada nos padrões de refinada elegância... de Saint-Germain-de-Près ou de outra parte de Paris? – sabe-se lá de qual, com cantante sotaque francês.
Da recepção do hotel, advertem-na: “Não saia agora, madame! Estão dissolvendo a balas de metralhadora manifestação pelo presidente morto”. Ao que ela, dando de ombros, pede que lhe abrissem caminho porque já estava acostumada a revoluções.
Em casa, abro um dos jornais que comprei em substituição àqueles que despencaram dos braços na hora da correria, e estala-me a idéia de pôr em versos a Carta de Getúlio. Passo a noite queimando pestanas nesse trabalho, que concluo aos primeiros cantos de galos pelos lados do outeiro do Valonguinho, em Niterói. Faço-lhe cuidadosa revisão, o dactilografo, releio o texto já pronto para o linotipista compor – ele, invariavelmente, com o latão de leite por perto e que era seu escudo contra possível infecção pulmonar pelo antimônio. Pego uma barca da Cantareira, adormeço sentado em um de seus degraus, um sono reparador face àquele serão que havia feito. Acordo com o apito da chegada à Praça XV, àquele tempo, sem mergulhões. Caminho pela rua São José, corto a Rio Branco, antiga Avenida Central; mais alguns passos, vejo-me diante da fachada de O Radical, jornal trabalhista dirigido por Georges Galvão, quem eu não conhecia, então, pessoalmente. Respiro fundo e subo as escadas. O primeiro a aparecer à minha frente, logo na entrada, era justamente, e eu só viria a saber depois, o diretor do jornal. Ele indaga: “Deseja alguma coisa?”. Com umas laudas na mão, comecei a explicar-me meio sem jeito: “Fiz uma carta em versos..” Num ímpeto, arrebatou de minha mão, assim me pareceu, a tal carta, leu-a atentamente e em silêncio, agita-se: “Vai à 1ª página de O Radical!” Estremeço.
.
O diretor pega em meu braço, leva-me até seu gabinete... “Sente-se”. Abre gavetas, apanha jornais e revistas, uma delas - edição especial da Revista do Globo, de Porto Alegre, com farto e rico material sobre a vida de Getúlio até o seu retiro em Itu, uma vez afastado temporariamente do governo, período que aproveita para o seu retorno ao Catete, que ele já dava como certo, em 1951. Eram memórias, parciais porém autênticas, ditadas a repórteres na fazenda de Itu com o auxílio de sua filha e secretária Alzirinha (Alzira Vargas), revisadas do próprio punho por Vargas. E Georges Galvão confiou-me todo esse material para que eu retratasse, em versos, a vida tumultuada, e gloriosa, daquele presidente. Sinto não ter podido me debruçar nos versos esperados pelo diretor de O Radical. Impediu-me de fazê-lo o lufa-lufa do jornalismo, trabalhando, às vezes, em vários órgãos da imprensa, inclusive em jornais falado e televisado, e por um tempo numa agência de notícias, além da revisão do Diário da Assembléia Legislativa, até alta hora, na Imprensa Oficial do Estado. Por pouco não batendo o incansável e competente Mário Curvello, mestre na titulação de matérias, entre outros méritos, o qual rompia ao alvorecer na redação do vespertino da Praça Mauá, para o fechamento de suas páginas, e, de lá, partindo para outros jornais, praticamente a virar a noite na vagarosa e romântica barca, a princípio da Cantareira, antes e depois do fogo ateado à Estação da Praça Araribóia por causa de aumentos de passagem, pelo que se sabia, com algum ingrediente político. O memorável e tradicional Restaurante Miramar, colado à estação e que nada tinha a ver com a história, foi também devorado pelas chamas.
Sempre que me encontrava com Curvello na barca da travessia Rio-Niterói, eu lhe perguntava pela casa que ele estava construindo no Saco de São Francisco – agora, somente São Francisco, sem o sinônimo de enseada, devido ao preconceito ou coisa similar de um vereador da Velha Província -- tijolo por tijolo, escoados os anos mais de torcida que da minha natural curiosidade. De volta de um fim de semana em minha terra, Boa Sorte, distrito de Cantagalo, dei com A Noite fechada a cadeado e meu coração pula; o que fazer? Contudo, em menos de um mês, pelas mãos do mineiro Clemente Luz, autor de Infância Humilde dos Grandes Homens, estava empregado no Diário da Noite, que me encaminhara ao Ministério do Trabalho para o devido registro de jornalista profissional, qualificando-me, inicialmente, nas funções de repórter.
E fiquei sem contacto com aquele companheiro de barca e de jornal, que espero tenha construído uma mansão... no Saco, posto que bem merecia. Em A Noite, que no meu tempo era dirigido por Carvalho Netto (sisudo e de boa sombra), órgão das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União, como a Rádio Nacional, recebíamos através de folhas assinadas, sem carteira de trabalho mas com aquela expedida pelo próprio vespertino, que já nos credenciava à militância normal.
Após certificar-me de que fora publicada na 1ª página de O Radical a Carta em versos, que também A Noite publicou, logo a seguir, com destaque, numa página interna, tendo-a reproduzido de O Radical, levo-a, redactilografada, à revistinha, de grande circulação, A Modinha Popular, do outro lado da Cinelândia, na direção dos Arcos da Lapa. A redação cabia numa mesa de escritório e as oficinas ocupavam todo o espaço nos fundos. Recebeu-me Joaquim Luchesi, proprietário e diretor da Modinha. Mal lê minha adaptação da Carta de Getúlio Vargas, vira-se para os fundos do pequeno prédio, grita: “Parem as máquinas! Tem aqui uma Carta melhor, vamos dar essa!”.
Parecia um galo italiano. E fez questão de acertar logo as contas, não me deixando falar. Abre uma gaveta, retira um maço de dinheiro, já não me lembro quanto – “trabalho assim” – e encerra a conversa: “Pago-lhe agora por 200 mil exemplares. Satisfeito?”



A Carta em versos


Mais uma vez, as forças contra o povo
e os interesses contra o povo, enfim,
coordenaram-se, ríspidos; de novo,
desencadeiam-se por sobre mim.

Não me acusam, me insultam com rudeza;
não me combatem, caluniam. Hora atroz!
Não me dão o direito de defesa,
precisam sufocar a minha voz.

Precisam impedir a minha ação
para que eu não defenda nunca mais
o povo, e não combata a espoliação
dos fortes grupos internacionais.

Sigo o destino que me é imposto.
Após decênios de dominação
dos mesmos grupos, levantei o rosto
e fiz-me chefe de Revolução.

Tenho lutado pela Liberdade
mês a mês, dia dia, hora a hora,
resistindo à pressão e â falsidade,
suportando-o em silêncio até agora.

Tudo esquecendo, renunciando a tudo,
a mim mesmo, em defesa do meu povo ingente,
que se queda nesta hora, sem escudo,
pois não querem que o povo seja independente.

Nada vos posso dar mais a não ser meu sangue.
Se as aves de rapina querem por bebida,
querem sugar ainda mais o povo exangue,
eu ofereço em holocausto a minha vida.

Eu escolho este meio de estar sempre vivo.
Quando vos humilharem,sentireis minhalma
convosco e sempre lutarei convosco, altivo,
quando a fome levar à vossa porta a palma.

Unidos vos trará meu sacrifício
e meu sangue será vossa bandeira,
a bandeira de luta - frontispício
da redenção da terra brasileira.

Era escravo do povo, humilde e bravo,
e agora me liberto para o Além,
mas este povo de quem fui escravo
não mais será escravo de ninguém!




E a Carta poética de Getúlio corta cidades e cidades, em trem de ferro, levada pelas mãos de jornaleiros, no Estado do Rio, revezando-se nas vendas o gordo Max e o magro José, e seguindo para outras regiões do país. Os jornaleiros se reabastecendo na Modinha Popular e... piuí... lá ia o trem: única coisa boa que os ingleses nos deixaram, dizia Vargas, certa vez, após haver discursado numa das paradas, em Cachoeiras de Macacu.
Meses decorridos, encontro o jornalista nordestino Armando Pacheco na redação de A Noite. Muito amigo do pintor marinhista cearense J. Carvalho, que construiu boa casa no bairro niteroiense de Santa Rosa valendo-se dos quadros que vendia sem molduras, levando as telas aos clientes, um desses clientes, Fernando Segismundo, debaixo do braço, Armando Pacheco a saudar-me:
“Sim senhor, hein! A sua adaptação poética da Carta de Getúlio está fazendo sucesso no Nordeste. Em Sobral, passava uma procissão entoando a Carta em versos na linha melódica do Queremos Deus...”
Mais algum tempo, sem um só exemplar da Carta em minha estante, volto à Modinha na esperança de conseguir algum. Lá encontro não Joaquim Luchesi mas o seu gráfico, e aperto-lhe a mão: “Está me reconhecendo?”. “O da Carta de Getúlio”, responde. Olha-me de frente, cofia o bigode, vai direto ao assunto: “Luchesi morreu. Ficou lhe devendo alguma coisa?”. “Não, ou parece que não”, voltei-me ao gráfico, pesaroso e aguardando o que de facto sucedera. E ele, a cofiar o bigode mais uma vez: “Luchesi caiu do alto do sobrado dos Tenentes”. Tenentes do Diabo, um dos clubes carnavalescos mais famosos do passado no Rio. Observa-se um instante de silêncio, ele limpa a garganta: “Mas a Carta... saiu toda! Luchesi chegou a tirar, além dos 200 mil, mais 100 mil exemplares!. Valeu”.
Com o fim da II Guerra Mundial, retornam dos campos da Itália os pracinhas brasileiros, cujo feito mais notável fora a tomada de Monte Castelo. Assisto da calçada oposta à do Diário Carioca, na Avenida Rio Branco, à passagem do cortejo dos esquifes com os despojos daqueles que tombaram em batalha. Olho para os lados e vejo homens, mulheres e até crianças com a mão sobre o peito. Sigo-os na reverência.
Corre o tempo; já no Diário da Noite sou escalado, juntamente com outro repórter, para a cobertura do desfile militar do 7 de Setembro na Avenida Presidente Vargas, quando um “cobra criada” do jornal chama-me a um canto e me dá a dica de como cobrir a parada sem fazer esforço. Segui as instruções dele. Eu alugava de uma inglesa um amplo quarto de frente para a rua Mariz e Barros, num agradável sobradinho, em Icaraí, a uma quadra da praia. A inglesa, dona Geniva, deliciava-se com a leitura de trechos de um romance que eu estava escrevendo sobre as noites nos dancings e cabarés do Rio. “Muito bom, senhor Fernando”, e procurando disfarçar os risinhos: “gostei...”.
A pouco do desfile, encontro tempo para pequena caminhada pela areia da praia e um mergulho. Volto para casa, uma chuveirada e eis-me trazendo bloco de papel e caneta diante de Oduvaldo Cozzi na tevê em preto e branco, Cozzi a moderar a voz em respeito à data cívica, tonitroante nas locuções esportivas.
Atravesso a baía de Guanabara, chego à rua Sacadura Cabral, entro na redação, dactilografo a matéria, surrando as teclas da máquina de escrever como quase sempre fazia – porque trocar as fitas era sempre sinal de chuva em qualquer jornal. E dou com o companheiro também escalado para cobrir o desfile já a meu lado, certificando-se do que eu escrevera, ali parado como um poste. “Mas não o vi no palanque!”, disse ele. “Mas é uma matéria a quatro mãos, assinada também por você, como vê lá no alto”, respondi. E ele, já que foi assim, a lamentar não ter aproveitado a manhã para uma esticada à praia...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Fidel: OEA abre as portas do Cavalo de Troia




Fidel: A OEA abre as portas do Cavalo de Troia

O Império Americano fracassou de novo, repetindo-se o fiasco na 5ª edição da Cúpula das Américas – realizada em abril deste ano, 2009, em Trinidad e Tobago - na tentativa de dobrar a América Latina em favor de seus interesses. Em pauta, um documento já assinado por 33 países-membros da OEA, Organização dos Estados Americanos, pelo qual chegava-se a um consenso visando à derrogação do impedimento a Cuba de fazer parte da OEA. A ilha de Fidel se acha fora daquela organização desde 1962.
A OEA compõe-se de 34 cadeiras. Em uma delas, mal se sentou, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que se esperava fosse acompanhar seus pares numa resolução consensual que reabriria as portas da organização à ilha caribenha, sem que o tivesse feito – sem maiores explicações – pegou o primeiro voo de regresso à Casa Branca.
Os ministros de Exterior que participam da XXXIX Assembléia Geral da OEA, à exceção do norte-americano, acordaram por consenso levantar a suspensão a Cuba, mas, para isso, as condições impostas pelos Estados Unidos levariam a Revolução Cubana para as mãos de um Fulgéncio Batista ressurrecto, na visão, principalmente, da Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia e Brasil, além da própria república de Fidel,os quais têm sido os mais inflexíveis na preservação da soberania e dos valores de La Habana.
Ao lado de se irmão e sucessor Raúl Castro, o ex-presidente Fidel Castro disse que “Cuba tem demonstrado que se pode resistir ao bloqueio e avançar em todos os campos e, inclusive, cooperar com outros países. Citou observação feita pelo presidente equatoriano Rafael Correa ao desembarcar em Honduras: “Não é possível que os problemas da região sejam discutidos em Washington, construamos algo próprio, sem países distantes de nossa cultura, de nossos valores”.
E o ex-presidente Fidel Castro, agora praticamente na chefia vitalícia de Cuba, principal assessor e conselheiro de Raúl Castro, sublinhou que “a totalidade dos países da América Latina foi vítima, ao longo dos anos, de intervenções e agressões políticas e econômicas. Agora,“a OEA abre as portas do Cavalo de Troia”...

domingo, 24 de maio de 2009

El 11 - S y sus raíces






El 11-S y sus raíces -I


En el traspaso de mando de la Fuerza Internacional de Asistencia a la Seguridad, de la OTAN, en Afganistán, de Gran Bretaña para EE UU en febrero de 2007, informóse de que mientras corría el 2006 las muertes por consecuencia de insurrección y contrainsurrección en la tierra de los talibanes sumaron unas 4.000 personas, parte de ellas civiles. En sus nueve meses al frente de la tropa, compuesta de 33.000 hombres, el teniente general David Richards, del ejército británico, dio su testimonio, en otras palabras, de la matanza desenfrenada de insurgentes e inobedientes -o de apacibles ciudadanos- delante del régimen de las botas extranjeras.

Ha reconocido que por el tiempo en que la Fuerza de la OTAN estuvo bajo su comando puede presenciar derramamientos de sangre sin precedente desde la invasión estadounidense llevada a cabo en el 2001: el año del 11-S o mejor dicho, por extenso, del derrumbe de las torres gemelas de Estados Unidos.

De esto se sigue que comienza, entonces, la caza de supuestos terroristas islámicos en cuyas espaldas pusieron la culpa del estrellón de dos de cuatro aviones Boeing 767 en contra el complejo de edificios del World Trade Center; uno de ellos yendose estrellar junto al Pentágono, sin daño de barras, como dicho sea de paso esperabase. Pongamos que esto haya mismo ocurrido: los arquitectos de una, en principio, fantasiosa demolición del WTC no podrían dejar de incluir en su Proyecto para un nuevo siglo americano¹ la necesidad de al menos chamuscar el corazón de la defensa estadounidense que es el Pentágono, a fin de que el arquetipo de la tragedia pareciera convincente a medio mundo. Y algunos testigos -hasta que los obligaran a callarse- dijeron haber oído explosiones de dinamita en la ocasión, inclusivamente el portero de la torre Norte del World Trade Center, Guillermo Rodríguez, más conocido como William.

El escritor y periodista Horacio Garetto (hgaretto@wilnet.com.ar) se ha debruzado en el rompecabezas como, apropiadamente, señaló a las informaciones oficiales respecto al suceso del 11 de Septiembre de 2001 -¡hay quién se lo diga!- con sobrada imaginación. Pero ¿cómo explicar la resurrección, por decirlo así, de cinco de los suicidas del Boeing 767? Son ellos: Abdulazis Alomari, Mohand Alsehehri, Saaed Alghamdi, Salem Alhazmi y Waleed Alsheri, que todavía deben de continuar viviendo en Arabia Saudita, sino que la CIA o alguna otra agencia de servicios secretos de EE UU -por ejemplo la NED, The National Endowment for Democracy (Fundación Nacional por la Democracia), una de las creaciones del gobierno del presidente Ronald Reagan- los tenga hecho desaparecer, una vez cesada su utilidad al sistema stay behind, que se puede traducir por estar detrás u oculto.

El 11-S y sus raíces - II

El stay behind, según documento divulgado por el Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), de Chile -bajo su exclusiva responsabilidad- “es una red de agentes ocultos en diferentes países y organizaciones, tales como: prensa, radio, televisión, policía, fuerzas armadas, aparatos de seguridad, partidos políticos, etc”. En Italia, véase en esto documento, se lo conoce como “gladio, en Francia y gran parte de los países de la OTAN (Organización del Tratado del Atlántico Norte) como misión 48, arcoiris y también como rosa de los vientos; en nuestro país (Chile) la versión es conocida como tizona y colada”.

Ha recordado que en Bolonia, Italia, “en el año 1980 los agentes de gladio hicieron explotar bombas en estaciones de tren, idénticas a las de Madrid y Londres”: 80 personas han muerto “y se culpó al comunismo internacional y por lo tanto el gobierno debía aplicar mano dura, sin embargo en el juicio los detenidos confesaron ser neo fascistas y contratados por la CIA” (…)

En el mismo documento se pregunta a quien benefician las acciones de Al Qaeda y Osama Bin Laden: “¿no es acaso a las transnacionales de armas, las petroleras, las de servicio y las financieras de los Estados Unidos?, o acaso, ¿las acciones no conducen al recrudecimiento de la represión contra los pueblos del mundo?”.

De su parte, Horacio Garetto registra el internamiento, noticiado por el diario francés Le Figaro, de Osama Bin Laden en el hospital norteamericano de Dubai, capital de Los Emiratos Arabes Unidos, dos meses y siete días antes del 11-S, para una diálisis de riñon, habiendo sido el tratamiento suministrado por el urólogo canadiense Terry Calloway.

En la víspera del 11-S, Bin Laden es nuevamente internado, pero en el hospital militar de Rawalpindi, en Pakistán. Y en el 12 de septiembre de aquel mismo año el secretario de Estado norteamericano Colin Powell empieza conversaciones con el gobierno pakistanés “con vista al arresto y extradición de Bin Laden”, subraya Garetto.

¿Quién habría de convenir que el ejército estadounidense desconociera el lugar adonde se encontraba Osama Bin Laden? Y se lo sabía ¿por que los servicios de inteligencia lo dejaron alejarse de sus ojos?

El 11-S y sus raíces - III

Y¿las cajas negras de los aviones utilizados en el derrumbe del World Trade Center? Hasta hoy, ¡quedaronse desaparecidas como en una paráfrasis al cuento célebre de Perrault, Caperucita Roja, en lo cual se halla basado el soneto antológico de Villaespesa, pudiendose pues decir, a propósito de las cajas negras, que el “lobo malvado” se las comió!
No es necesario ahora detenerse en hipótesis como la de que los edificios del WTC, mencionada por Horacio Garetto en su trabajo, hubo sido “diseñados a prueba de impacto de aviones”, por ejemplo, según Hyman Brown, responsable por la administración de aquel gigante architetónico, tras la resurrección de los suicidas del Boeing 767. Esto ya es suficiente para la pulga aterrizar atrás de la oreja…

Y ¿que decir de documentos como aquel que Donald Rumsfeld, Dick Cheney y otros ases de la derecha de EE UU redactaron en septiembre del año 2000 sugiriendo “algún evento del tipo Pearl Harbour” que sirviera para “indignar y poner a la opinión pública americana a favor de una agenda de guerra”?
1. Para el gobierno norteamericano, sea ello republicano o demócrata, nada es inalcanzable. En su concepto, debe de creer que Dios allase con la moneda de su mercado.

Es en todo y por todo oportuno rebuscar en la Historia hechos como lo sucedido por el año 1898, cuando EE UU ha explotado en la Bahía de La Habana, en Cuba, el acorazado Maine con 354 marinos a bordo y lanzado la culpa de esto acto extremamente depreciable a la España a fim de declararle la guerra y de ganarla, como en efecto ha triunfado y así, por debajo del paño, lograba la conquista de Cuba, Puerto Rico, las Filipinas y de la Isla de Guam. En el Archipiélago de Filipinas, los yanquis ya del ocaso del siglo XIX barrían de aquella cultura a la lengua española.
En resumen, produjeron con el hundimiento del buque de Mac Kinley el casus belli que juzgaban indispensable a sus asomos de dominación y avasallamiento sin fronteras. A 5 de abril de 1898, el Diario de Avisos de Santa Cruz de Tenerife habia divulgado ser “imposible enterarse de la farsa representada con motivo del informe yanqui relativo a la explosión del Maine, sin embargo dice que no lo hará cuestión de gabinete, pues lo considera como un hecho fortuito. De todas maneras buscará otro pretexto” (…)

El 11-S y sus raíces - IV

En artículo publicado en la Revista Latina de Comunicación Social (La Laguna, Tenerife, septiembre de 1998, nº 9) Enrique Rodríguez López subraya que “el apasionamiento patriótico se reaviva cuando surgen rumores más o menos confirmados sobre la posible invasión americana de las islas” (…)

El encorazado en visita -decíase de cordialidad- a la isla caribeña se vá por los aires, sin la presencia del capitán Charles D.Sigsbee, su comandante, que extrañamente ausentarase de bordo; hallabase en aquel momento cerca de Florida y mientras tanto hubo llegado al puerto a tiempo de comunicarse por telégrafo con el secretario de Marina de su país:

“Maine explotó en puerto de La Habana a veintiuna y cuarenta y destruído. Muchos heridos y muchos más muertos. Heridos y ilesos a bordo de buque de guerra español y vapor de la Ward Line”.

La prensa amarilla, que en rigor concentrabase en Norteamérica, no lo hizo otra cosa sino perfilarse con el gobierno. William Randolph Hearst, que ya en aquel tiempo poníase al servicio de causas de las cuales pudiese sacar algun provecho sucio, dio la más amplia divulgación a los hechos conformemente al pensamiento, esto és, al arsenal de doctrinas de Washington.

Así, el 16 de febrero de 1898, el New York Journal, de Hearst, salió a las calles bramando el siguiente titular: “El barco de guerra Maine partido por la mitad por una artefacto infernal secreto del enemigo”.

España ¡el enemigo! En pocas palabras, el periodista Yoel Cordoví Núñez ha trazado con claridad meridiana el retrato de cuerpo entero de Norteamérica al largo de la Bahía habanera: “Al mismo tiempo que se hundía el Maine en aguas caribeñas, emergía un símbolo, bandera de los sueños imperiales prontos a materializarse en suelo cubano”.

En efecto, el 21 de abril de 1898 estallaba la guerra que señalaría la materialización jingoísta de estos “sueños imperiales”, de la cual EE UU saldría triunfante merced a la participación, al arrojo de los cubanos que cayeron en el cuento del independentismo. (La geografía política de Cuba en aquello período de indefiniciones se dividia entre independentistas y españolistas).

El 11-S y sus raíces - V

Documentos y notas -de buena origen- que se há recogido con el propósito de entender sobremanera lo sucedido a las 21: 40 de 15 de febrero de 1898 apuntan a una “maniobra intimidatoria y de provocación hacia España, que se mantenía firme en el rechazo de la propuesta de compra realizada por los Estados Unidos sobre Cuba y Puerto Rico.” (Guerra Hispano-Estadounidense, El hundimiento del Maine -De Wikipedia, la enciclopedia libre).

Es muy curioso que la explosión del Maine se hubiera dado prácticamente durante recepción ofrecida a la oficialidad del buque por las autoridades españolas locales. Los españoles creeron en la supuesta cordialidad norteamericana expresa por el presidente William Mc Kinley al explicar la visita del aparatoso barco de guerra a la Bahía de La Habana como “un gesto de amistad” con España.

En artículo titulado Conducta bélica estadounidense -debate y controversia (Jubilatas.com), el historiador y analista político Miguel Leal Cruz sostiene que aquella tragedia “fue previamente preparada, probablemente, por personal al servicio de los mismos Estados Unidos, en su desesperado intento de participar en la guerra cubana, a favor de sus muchos intereses en la isla” (…)

Pero dirán los más cautelosos que llevar al sacrificio 266 marineros de la propia pátria de Mc Kinley ¿no sería caer en contradicción con todos los preceptos de la lógica?

La lógica -pongase el dedo en la herida- de ¿aquel naciente imperio, que se fundaba a precio de traición, de bajeza, del embuste, de indignidad, del llamado “destino manifiesto” o “predestinación divina”? Cargaron la cabeza del pueblo con peroratas de que Norteamérica estaba predestinada a ponerse a caballero sobre todo el planeta. Profanación sin límite de Dios usarlo serviéndose del demonismo para el vuelo ciego de sus impúdicas ambiciones.

“Sedientos de tierras” -como habrá dicho el presidente Theodore Roosevelt el 1906 a través de su representante en la III Conferencia Internacional Americana, el secretario de Estado Elihu Root, en la cual el gobierno, que había ocupado Cuba tras la explosión del Maine aún bajo la presidencia de Mc Kinley (asesinado en su segundo mandato), le llega la vez de echar los perros a las naciones de América Española: “¡No se tiene otra salida que no sea la intervención!”.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Estado palestino, eis a questão



Sob a mira da ocupação



Até estas horas não se sabe ao certo a que veio o novo presidente dos Estados Unidos que pudesse dar um outro rumo à Humanidade, menos acidentado, sendo ele, ou se presumindo, numa interpretação histórica dos factos, o atual imperador do mundo ocidental. A não ser – o que mais,? – a fim de trocar amabilidades em encontros internacionais e, às vezes, como na V Cúpula das Américas, a “cúpula do calypso” na feliz expressão de um jornalista de Madrid, salpicando-os com pitadas de humor. O presidente do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva, que se tornou conhecido por algumas luas nos bastidores da política transoceânica como “O Cara” ouviu de Barack Obama, como ouviram, também, outros mandatários, enternecedores gestos de amizade. Literalmente, o dizer português (ou inglês) popular: “Quero ser seu amigo”; faltando só, entre nós – brasileiros, o complemento: hein, meu chapa!
Barack Obama, seguindo a tradição da diplomacia imperial de Norte América, e a guardar as idéias de seu antecessor, George W. Bush, para pô-las em prática na hora precisa, aterrissara em Porto de Espanha pisando em ovos, mas fazendo-se en passant o anfitrião de “La Cumbre del Calypso”. E logo retribuindo com uma alfinetada em Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que acabara de presenteá-lo com a obra maior de Eduardo Galeano, com a bíblia das esquerdas latino-americanas – “As Veias Abertas da América Latina”. Ao ver o livro passar às suas mãos. Barack Obama não perdeu tempo, sentindo-se, naturalmente, espirituoso: “Pensei que fosse um dos livros do Chávez; já ia lhe dar um dos meus”.
Faltou quem lhe puxasse o fraque para perguntar-lhe de quais livros era ele autor.
Já nas portadas de sua administração, Obama respondia ao caos do governo Bush com medidas chamadas - ao correr da pena - humanitárias; de todo modo, palatáveis, numa dosagem razoável para que merecesse elogios da opinião pública. Medidas voltadas, principalmente, a Guantánamo e outros cárceres políticos semeados mundo afora para manter o neoliberalismo econômico e, por consequência, a armadura hegemônica do Império Americano. Além de ter acenado com flexibilidade nas relações EUA-Cuba sem chegar ao ponto de mudar os planos de Washington para a ilha visando a subjugá-la após atraí-la à órbita do imperialismo.
Mas a opinião pública não cai assim tão fácil numa esparrela. Viu o presidente dos Estados Unidos pegar na pena e ordenar a reabertura dos tribunais militares de Bush para julgamento de encarcerados em Guantánamo. Raúl Castro, ao perceber a astúcia de Obama – em quem não se podia confiar – pensara, certamente – preferiu a quietude da discrição a comprometer suas divisas e a própria continuidade da Revolução Cubana.
Dias antes, as decisões do novo presidente americano foram, ao contrário das mais recentes, no sentido de se dar divulgação às atrocidades da administração anterior tanto no “território caribenho ocupado” (Guantánamo, pois é), como no Oriente Médio.
Um passo adiante, um passo atrás... É como parece andar o novo ocupante da Casa Branca.
As cíclicas e conceituais divergências dir-se-ia em família não o impedem de caminhar nem sempre lado a lado com Israel, mas numa só direção: a do interesse mútuo, que acaba traduzindo-se numa mútua dependência. Isto significa que Israel associa, como na questão, em pauta, dos ”territórios ocupados”, um Estado palestino a um presumido crepitar de terrorismo, ao passo que os Estados Unidos de Obama já não veem nisso ameaça alguma ao Império americano-judaico. Pelo menos, é o que pensa, ou deve estar pensando, o sucessor de Bush no limiar de seu governo. E é bom não esquecer que a Agência Central de Inteligência e o Pentágono abrem sombra a qualquer um que se alce à presidência dos Estados Unidos, seja do Partido Republicano, seja do Partido Democrata. (A propósito, cabe aqui a leitura de “Crimes de Guerra do Vietnã”, do filósofo Bertrand Russel).
No encontro de maio de 2009, em Washington, do premier israelense Benjamin Netanyahu com o presidente estadunidense, este bateu na tecla de um Estado palestino e considerou imprudência tentar forçar o Irã a desistir de armas nucleares. Netanyahu, ainda assediado por fantasmas do terror, continuou discordando da tese defendida por seu par, de um Estado palestino como uma necessidade estratégica para se alcançar a paz no Oriente Médio.
Contudo, os apertos de mão entre os dois são sinceros, não há por que duvidar disso. Está-se diante de uma longa trajetória percorrida por ambos os “tarzans” e havendo ainda muito que percorrer. Acrescente-se que a segurança do Estado judeu se acha nas mãos dos Estados Unidos da América. Por isso mesmo, Benjamin Netanyahu não se poupou de dar uma puxadinha de orelha em Barack Obama, alertando-o para a hipótese de um Irã civilizadamente armado, no estilo Século XXI. Apesar de discordar, em tese, de seu colega no equacionamento do separatismo de judeus e palestinos, Obama disse concordar com ele em que “o Irã com armas nucleares é sempre motivo de preocupação, não só para Israel e EUA, senão para toda a comunidade internacional”.
O presidente estadunidense, em suma, fez ver a Netanyahu que o melhor caminho para se chegar a um consenso sobre o problema das armas nucleares seria a negociação com o regime de Teerã. E pesa na balança o facto de que 70 por cento, ou mais, dos judeus norte-americanos votaram em Barack Obama.

sábado, 9 de maio de 2009

Jeff Halper

Um muro tão alto e mais largo que o de Berlim


Jeff Halper é um israelense igual a muitos outros espalhados pelo mundo, mas que, à diferença daqueles que pegam em armas contra palestinos, sempre à sombra de Washington, que não lhe nega cobertura (embora, às vezes, como agora com Barack Obama na presidência dos Estados Unidos, oposto a George W. Bush, ao menos aparentemente), Halper exsurge como ativista dos mais conceituados, respeitados e sensatos de que se tem notícia no fio de uma sangrenta queda de braços a que se assiste no Oriente Médio ao correr da História.
Candidato ao Prêmio Nobel da Paz desde o ano de 2006, diretor do Comitê Israelense contra a Demolição de Casas nos Territórios Palestinos Ocupados, Halper observa que Israel erigiu um “regime repressivo para negar permanentemente aos palestinos a autodeterminação, a cidadania, os direitos humanos e civis fundamentais”. Lembra terem sido construídos uns 250 assentamentos judeus e demolidas em torno de 24 mil casas palestinas, incorporando-se nesse cenário sombrio o bloqueio econômico e a construção de “um muro tão alto como o que havia em Berlim, e cinco vezes mais largo, a confinar a população palestina em 70 enclaves sem conexão entre si”.
- Como pode um país soberano viver nessas condições? É a pergunta que ele se faz. Os palestinos – acrescenta – têm sido definidos como um povo que não necessita de um Estado; que pode ser controlado para sempre.
Segundo Halper, Gaza foi “um exercício de guerra urbana: uma oportunidade para provar sobre o terreno as novas armas e as táticas de contrainsurgência em ambientes densamente povoados”.
Ainda pelas informações do ativista candidato ao Nobel da Paz, 60% das exportações israelenses são de material bélico ou artigos relacionados à Segurança, “mais uma demonstração de que os territórios palestinos ocupados se têm convertido em laboratório de provas do Exército de Israel”.
Halper não tergiversa em suas considerações; toca o mérito da questão com a destreza e consciência de um autêntico paladino da justiça. Sem meias palavras:”A lógica econômica e militar do capitalismo global impede uma solução pacífica para o conflito no Oriente Médio (...) Israel amealha réditos políticos e econômicos através das incursões israelenses na Palestina”, afirma Halper, que obteve a cidadania palestina após romper o bloqueio de Gaza, em agosto de 2008.
Israel, diz ele, dissimula a ocupação e retrata os palestinos como uma população que resiste a uma “adequada administração”: israelense. “Quando se sublevam contra a ocupação, como fizeram nas Intifadas, as operações militares israelenses são apresentadas sob o guarda-chuva da autodefesa”, diz o ativista e aspirante ao Nobel da Paz.
Não é de hoje que Tel-Aviv bombardeia alvos palestinos de tal modo a atingir instalações da ONU, acidentalmente - como procura justificar-se perante o mundo. Mas o facto é que o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, diante das evidências das ofensivas de dezembro de 2008 e janeiro de 2009, não teve dúvidas em responsabilizar Israel pelo sangue derramado na região, deixando um saldo de 1.400 mortos e 5 mil feridos.
Informe extraído de um sumário de extenso documento em mãos do secretário geral da ONU dá conta de que as bombas que alcançaram suas instalações destruíram escolas, uma clínica médica e a secretaria de uma agência em Gaza das Nações Unidas, supondo-se que os atiradores tenham usado, inclusive, “fósforo branco” que é condenado por convenção internacional.
Por tudo isso, a ONU exigiu de Israel a reparação dos danos que lhe causou e, bem assim, aos palestinos, tendo arbitrado uma indenização no valor de 7,8 milhões de euros, equivalente a 5 milhões de dólares.