sexta-feira, 21 de maio de 2010

O circo de Washington

Hugo Chaves e Lula a estreitarem os laços de cooperação econômica entre seus países firmando novos acordos neste sentido, que venham contribuir decisivamente para a integração, como queria Simon Bolívar, do continente Sul das Américas.
É por governar nesta direção e por empenhar-se em dar continuidade a seu programa de governo, que Lula tem quase 100 por cento de aprovação popular, como demonstram as pesquisas de opinião, dependendo para isso da vitória de sua candidata nas eleições que se aproximam. E é o presidente brasileiro o alvo principal dos interessados em fazer com que o Brasil e nações co-irmãs entrem em processo regressivo.
Washington comanda o espetáculo, que inclui ainda as impagáveis “mulheres de branco” em suas manifestações no centro de Havana por liberdade para os anticastristas postos atrás das grades por ameaçarem a Revolução cubana. Se os norte-americanos se acharem ameaçados em seu próprio, território, como, aliás, se divulgou ainda recentemente o caso de um carro-bomba encontrado em plena Times Square - o que fariam senão efetuar as detenções de inimigos de seu regime e enviá-los a alguma das muitas bases prisionais que Washington possui no mundo. Ou, como já fizeram ao tempo de George Bush: encerrá-los em jaulas na base aérea de Guantánamo, inflingindo-lhes castigos corporais e morais como os de Abu-Ghraib, usando inclusive cães amestrados a fim de aterrorizá-los.
Quanto aos anticastristas presos em Havana por atentarem contra a Revolução, não se ouviu notícia alguma de que hajam sido torturados, nem de que lhes faltasse o alimento. Lembremo-nos do que aconteceu a um anticastrista que se recusara a alimentar-se, entrando em greve de fome até morrer estupidamente... E surgem as “mulheres de branco” em manifestações pelas ruas de Havana num longo documentário de tevê em que aparecem em primeiro plano, lado a lado, Fidel Castro e Lula, numa clara montagem fotográfica. A época é de campanha eleitoral no Brasil e a finalidade desse documentário é queimar Dilma Roussef como a candidata que se propõe dar continuidade à linha econômica e social do atual governo.
E que dizer da condenação de Sadan Hussein à forca por um corpo de juízes de engonço movido por uma troupe de militares ianques dos desvãos da Casa Branca? O olhar fixo e imperturbável de Sadan diante de seu carrasco, e dos próprios juízes de fachada, denunciava um dos crimes mais hediondos da História recente, a ponto de haver traumatizado até pessoas normalmente distanciadas do noticiário internacional.
Vem agora o dançarino Barack Obama - não o viram enlaçar sua Primeira Dama no dia da posse, saracoteando ao som de um blue na sacada do Salão Oval da Casa Branca? – com a petulância de querer impor seu presumido poder de veto à iniciativa brasileira de resolver diplomaticamente o problema do enriquecimento de urânio pelo Irã.
Deve ele, ao parecer, estar esfregando o nariz nos acolchoados de sua, agora, residência oficial, a tentar, inutilmente, passado tanto tempo, aspirar os odores do romance menos proibido que inconveniente, pouco ou nada indecoroso, do ponto de vista das liberalizações, caso se desenrolasse num motel ou que fosse num iate, entre Bill Clinton e a estagiária Mônica Lewinsky.
Assim é o Circo de Washington, mescla de descaminhos orais e “atos cirúrgicos” de guerra como aqueles fulminantes no feitio de mísseis eletronicamente dirigidos, através de uma parafernália de máquinas, desfechados sobre Bagdá, a Bela, diria o escritor Mansour Challita, pela “maior democracia do mundo”, cometendo esta o pecado, mais que mortal, da destruição de grande parte da História da Humanidade.
Que direito assiste a Washington no contexto da sócio-economia mundial para conter o Oriente Médio na busca de melhores condições de vida para seus povos, da mesma forma que o Brasil e outros países ditos emergentes, o que somente poderá ser conseguido armando-se adequadamente a exemplo do que fizeram os Estados Unidos da América e a antiga União Soviética, que foi desmantelada em razão de infiltrações de agentes da CIA mas que hoje, na roupagem de Rússia, por olhar Washington com certa desconfiança, mantém pelo menos grande parte dos seus mísseis apontada para a “maior democracia do mundo”.
Caberia, então, ao Brasil corrigir a sua Carta constitucional no dispositivo inspirado em uma ditadura que durou três décadas, iniciada, em tese, em 1964, o qual deixou nosso país impossibilitado de fabricar a sua bomba nuclear.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Capitão América é candidato

Capitão América é candidato

O candidato do PSDB à sucessão do presidente Lula, José Serra, que nos primórdios de sua militância política, por distração da estudantada da época, chegou a ser guindado à presidência da UNE, União Nacional dos Estudantes, agora descarrega farpas, indiscriminadamente, contra todas as iniciativas progressistas e de estabilidade econômica do país no atual governo, tais como o retorno da Telebrás, o aumento da renda per capita nacional, a redução substancial das diferenças sociais entre ricos e pobres, segundo as mais recentes estatísticas, e inclusive seu empenho, juntamente com países vizinhos, no fortalecimento e expansão do Mercosul.
Com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a soprar-lhe ao ouvido, quem sabe, pois tudo aponta nesta direção, o que deve ele, Serra, falar ou fazer. Assim, este aspirante ao poder maior da República não poupa petardos de oratória contra um governo mundialmente reconhecido em sua luta para acabar com a fome no Brasil e reduzi-la em regiões do planeta em que parece ter-se enraizado.
A ex-ministra de Minas e Energia e da Casa Civil do governo Lula e sua candidata preferida ao pleito de outubro próximo, Dilma Rousseff, já declarou que, se eleita, vai restabelecer a política da iniciativa estatal como base primacial dos empreendimentos públicos no país. Disse que vai governar prioritariamente para os mais necessitados e para que o Brasil alcance em breve espaço de tempo e de facto o patamar de grande potência. E que aqueles que pregam o “Estado mínimo” escamoteiam os prejuízos que o Brasil somou em sua economia com as criminosas privatizações feitas a partir da “doação”, como diria o jornalista Hélio Fernandes na nova fase de sua Tribuna da Imprensa, da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, um dos esteios da arrancada do país para sua emancipação econômica, fincado pelo presidente Getúlio Vargas, do mesmo modo como o foi a Companhia Vale do Rio Doce, privatizada por Fernando Henrique Cardoso, evaporando-se em pouco tempo todo o dinheiro apurado com este e outros negócios de uma China de anedotário. É ler, ou reler, o que a Folha de S. Paulo publicou há anos a respeito das privatizações feitas àquela época. Em extensa e muito bem fundamentada reportagem, a Folha mostrou, provando com números oficiais, os prejuízos causados à Nação brasileira por tais negócios, que FHC já havia anunciado da tribuna do Congresso Nacional nas entrelinhas ou no bojo do discurso por ele pronunciado, de despedida das lides parlamentares, a fim de assumir a presidência da República. Quando apregoou o fim da era Vargas. Quis dizer que daria um fim ao “Estado mínimo”, entregando o país à iniciativa privada. E lá se foi, de roldão, além da CSN e da Vale do Rio Doce – o riquíssimo vale dos minérios que vinha sendo explorado pelos ingleses sob uma concessão anterior a Vargas, foi devolvido ao Brasil em troca da participação de nosso país na II Guerra Mundial, ‘guerra de cachorro grande’, deve ter pensado aquele presidente - da mesma forma como fora acertada com os americanos a construção da usina de Volta Redonda – muitas outras estatais, além da quebra do monopólio estatal do petróleo, até zerar o Estado, tal como defendiam os privativistas tão ignominiosa solução que por pouco não se concretiza, também, no próprio Banco do Brasil. Içando a bandeira de tio Patinhas sobre o continente Sul das Américas.
Quanto a José Serra, ainda bem ter-se posicionado, em campanha, favorável ao programa bolsa-família, pretendendo mesmo ampliá-lo, como disse, caso ganhe a eleição. Este programa é o carro-chefe de Luiz Inácio Lula da Silva e cujo sucesso teve grande repercussão no mundo inteiro, tendo o presidente brasileiro, por esta sua iniciativa, recebido várias homenagens no exterior, especialmente de organismos internacionais.
O tio Patinhas é o símbolo canhestro de Norteamérica, o qual rumina seus dias velejando pelo mundo, há séculos, a passar a perna nos mais desavisados. Disfarça-se, às vezes, por exemplo, de Principe Submarino ou de Capitão América. Como Capitão América, participa de campanhas eleitorais, na condição mesmo de candidato, em todos os quadrantes do globo, só se dando mal, a rigor, na ilha caribenha dos irmãos Castro e na Venezuela do temido e inflexível Hugo Chaves, o país que nada em petróleo, enchendo os olhos dos americanos do Norte.
Da parte do Brasil, pode-se dizer, tranquilamente, que ele vai muito bem, em contraste com a crise financeira que percorre países da Europa como a Grécia, Espanha e Portugal, tendo o ministro Guido Mantega observado que a economia brasileira se acha agora imune a essas turbulências, com boas reservas internacionais em caixa.

Lei da pele branca

Lá dos States chega-nos a notícia pela Globo News de que no Estado do Arizona o seu governador baixou uma nova lei de imigração pela qual qualquer cidadão que não tiver a pele branca e seu cabelo for preto poderá ser abordado pela autoridade policial mandando apresentar seus documentos. Os casos suspeitos de imigrantes ilegais serão encaminhados à autoridade competente, que lhes dará o destino que a tradição americana indicar. A de triste memória remonta aos tempos separatistas, de brancos de um lado e negros de outro, nos coletivos, nas escolas, nas próprias ruas, quando lhes era vedada, por exemplo, a passagem pela Times Square. Tudo isso, sem falar na Ku-Klus-Klan, a atear fogo em casas de negros, e bem assim nas bárbaras investidas de policiais em praça pública contra aqueles que não tivessem a pele branca.
No rol dos perseguidos, nos dias de hoje, se bem que sem a fúria de um passado não muito distante, estão os chamados hispanos, que se uniram, por esta razão, em comunidades, dentro das quais se fala, de prefrência, o espanhol. Incluem, além de mexicanos, bolivianos e outros cidadãos de fala hispânica, também brasileiros e demais imigrantes morenos ou mulatos.
Conversa de rua
- Quer dizer que se Barack Obama pôr os pés no Arizona terá de desembolsar documentos provando ser o presidente dos States!
- Isto mesmo! E ele que se cuide, porque branco azedo lá é picada de abelha fêmea, só passando a dor fazendo-se uma boa fricção com pinga das Minas Gerais.
- Por falar em Obama, vi na tevê uma entrevista do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, em que, perguntado pelo repórter se era verdade que a popularidade do novo presidente estava mesmo caindo, respondeu na bucha com um gesto afirmativo, num balanço rápido e repetitivo de queixo para cima e para baixo.
- Hi...
- E o embaixador fala razoávelmente o português.

Lula e a moeda do impossível



Lula e a moeda do impossível

Pingarroxos da imprensa ocidental, incluindo-se alguns brasileiros, em especial do telejornalismo, à exceção de analistas conscientes de sua responsabilidade ética perante a opinião pública como José Pinguelli Rosa, catedrático da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente da FBMC, cujas opiniões sobre o problema nuclear no mundo, sempre que entrevistado se acham afinadas com o respeito à soberania dos povos, primam por mistificar, descaradamente, situações concretas.
O prof. José Pinguelli, em recente entrevista ao canal de tevê Globo News, após ouvir várias entrevistas estapafúrdias sobre o acordo nuclear firmado pelo Brasil em Teerã por iniciativa do presidente Lula, contando inclusive com o aval da Turquia, deixou no ar a indagação por que só o Irã estaria impedido de enriquecer o urânio, tanto mais pelo fato de que somente com este minério não se faz a Bomba Atômica! E, o mais importante, por que não pressionar os Estados Unidos da América e seu par, Israel, e outros países da Europa visando ao desarmamento nuclear? Para Pinguelli, preocupam-se apenas com o Irã, talvez com vistas ao seu petróleo, que é rico e farto, detendo aquele país imenso a segunda ou terceira maior produção do “ouro negro” no mundo.
E mais: com olhos tão grandes deitados sobre o petróleo do Irã, e agora, mais do que nunca, os Estados Unidos procuram esconder de países aliados sinais de desespero em que parece estarem entrando, pelo isolamento a que se sentem submetidos em razão dessa reviravolta no tabuleiro de xadrez internacional.
Nós, brasileiros, devemos, com toda justiça, nos rejubilar de termos conseguido o que os Estados Unidos da América diziam, matreiramente, ser de todo impossível, porque o Capitão América, a voar mundo em fora pelos quadrinhos da mídia dirigida a uma juventude indefesa, não permitiria que sucedesse, mesmo que se alguém fizesse pé firme em sentido adverso às ambições de um império em fim de carreira, praticamente condenado à incômoda condição de moribundo. Deste modo, não faltaria no arsenal de heróis em quadrinhos quem aparecesse para obstaculizar a grande marcha das emancipações de países que tio Sam, cínica e ironicamente, rotulava de ‘em desenvolvimento’. Em vão, porém, visto que as turbulências financeiras sacodem a Europa, impossibilitados que ficam os Estados Unidos de contar com balsas de salvamento que seriam jogadas por presumidos aliados europeus, entre os quais a Rússia, cujo presidente, Dmitri Medvedev, no encontro com Luiz Inácio Lula da Silva em Moscou sob as vistas cautelosas de Putin, que mercê da experiência de antigo chefe da KGB na velha URSS manteve a boca fechada a sete chaves, por assim dizer, cometeu a chacota ou indelicadeza de apostar na chance de 1 a 3 de a missão do presidente brasileiro ser bem sucedida, antes de sua esticada a Teerã. Mais um cordeirinho dos Bush, pai e filho, esquecido nos braços de Obama? Como deve ter ficado a cara do chefe do governo russo após chegarem em Moscou as notícias do sucesso da missão Lula junto ao gigante asiático em campo neutro, a Turquia? Irã é o 6º maior país do mundo. É bom entender que o fato de Teerã haver anunciado, após o acordo, que o enriquecimento de urânio lá continuaria não deve ser levado a termos absolutos ou que isto seja um passo para os iranianos fabricarem a sua Bomba Atômica. Já se disse que a fabricação de um artefato nuclear requer o emprego de muito mais que urânio, ou seja, também de outros materiais estratégicos.
Recorde-se de quando agentes do imperialismo ocidental, em serviço de espionagem e captação de minérios no Brasil por parte de Norteamérica, punham suas mãos no extenso Vale do Rio Doce, desde o Estado de Minas Gerais até a região nobre da Amazônia, em busca de minérios para suas ‘necessidades nucleares’.
O juiz Osny Duarte Pereira lançava seu livro-bomba, na primeira metade do século XX, ‘A antinomia do Acordo Militar Brasil-EUA’, em que denunciava, vale dizer em cores fortes, a desfaçatez dos norte-americanos de impor ao Brasil um acordo francamente lesivo aos interesses nacionais.
Os americanos fuçavam até as areias monazíticas de Macaé, antes de a Petrobras se instalar na cidade mais clara do país: feita a barba diante de um espelho, viam-se com toda nitidez os poros do rosto, como se o rosto estivesse coberto de orifícios deixados por alguma doença misteriosa de pele. As areias da Praia de Imbetiba a sugarem os pés de banhistas, sendo elas monazíticas, dizia uma camareira do hotel encravado numa pedreira do Oceano Atlântico, que dava a impressão de ir, impetuoso, de encontro com a estrutura do Imbetiba.
Agora que a China acaba de anunciar sua aprovação ao acordo nuclear Brasil-Irã-Turquia, é chegada a hora de devolvermos a moeda do impossível aos americanos do Norte, numa referência à pretensão de Lula em sua missão, afinal vitoriosa, no Sudoeste asiático.
Será que o sangue nordestino do presidente brasileiro, caldeado com o sangue indígena, quem sabe dos tamoios, não terá influído nesta sua viagem a um outro mundo, um mundo asiático!?
Não pensem que sou do PT.

domingo, 16 de maio de 2010

O goleiro de um pé só

O goleiro de um pé só

Aqueles que estudaram em minha época no Ginásio, depois Colégio Euclides da Cunha, do professor Messias de Moraes Teixeira, lá pelos anos 40, com o professor Batista faltando só arrancar os cabelos para enfiar lições de gramática ou de outra matéria em certas cabeças não me deixam mentir. Um deles, Antonio Carlos Gonçalves, o Carlinhos, que chegava, às vezes, a esconder debaixo de sua capa de inverno o taco de sua predileção ao sair do salão de sinuca do bar de seu Janjão, do lado direito de quem viesse da estação de trem, atrás da Praça dos Melros, aqueles melros que um dia, por causa do desmatamento desenfreado nas franjas de Cantagalo, se foram como para a eternidade. Boas luas, boas luas... O giz a cantar na ponta do taco que para Carlinhos tinha algo de mágico, por isso Carlinhos o esfregava de cima a baixo com as mãos e, aí sim, assestava a pontaria com a bola 5 azul, a da sorte, acreditava, e inclinando um pouco o taco para que ela recuasse até ao ponto em que ele pudesse alcançar outra bola, a 3, por exemplo, de cor verde e que parara a um canto estratégico. Uma tacada e desperta a bola 7, preta, seguindo-se outras jogadas até balançar a caçapa do final da partida, desta vez o adversário a segurar seu taco sem que desse uma só tacada.
Ninguém, pois, de tempos idos em Cantagalo, como Gutinho, que era bem alto e que insistia em apelidar-me de Gigante, pela minha estatura de Rui Barbosa, sendo que alguns colegas mangavam de minha testa larga, de Rui, diziam, me deixa mentir.
Chamavam-no de Toneca. Era o goleiro do nosso time de futebol no ginasial. Espadaúdo, devido, naturalmente, à muleta que levava no sovaco esquerdo, seus músculos pulando, por assim falar, ao se jogar sobre a bola, desfazendo-se impetuoso da muleta, que arremessava a uma distância de metros, Toneca à espera da bola num dos lados da rede, ora da direita, ora da esquerda, ainda apoiado na muleta, que ele somente jogava fora da área, com destreza e bom muque, firmando-se em um pé, quando o ataque adversário aproximava-se dele. E... pimba!
Toneca não se intimida. O gramado em frente era-lhe um colchão de espumas. Assim, ei-lo estirado no colchão, as mãos calosas, fortes, grandes sobre a pelota, logo a abraçando e, após apanhar a muleta, ergue um braço, a desferir um murro no ar e abrir um largo e fagueiro sorriso por mais um chute a gol aparado no peito.
Não era um craque? E um craque excepcional, de fôlego inusitado. Sua performance em Cordeiro, cidade que se tornou conhecida em todo o país e até no exterior por sua laureada exposição agropecuária ficando a umas três marchas de Cantagalo, era de deixar de queixo caído qualquer goleiro com os dois pés.
Nos treinos, o desafio a fim de testar suas condições físicas e seus reflexos, se estava preparado para enfrentar o próximo adversário. E Toneca empina-se de um lado a outro da cidadela... que vem bala! Ainda bem que de seu próprio time. Isso, porém, não faria a menor diferença. A bala vem, dir-se-ia zunindo, e Toneca mostra que estava em excelente forma. Despede a muleta para fora da área e agarra o petardo, triunfante.
A próxima partida seria disputada no campo do Cordeiro Futebol Clube contra um colégio local, e era grande a expectativa nas duas cidades, baixando sobre elas um clima de preocupação, principalmente entre os professores, tendo em vista o que quase sempre acontecia quando os times de adultos de Cordeiro e Cantagalo se defrontavam: saíam no braço, felizmente sem maiores conseqüências. Por esta razão, o professor “Batistinha” foi ao gabinete do professor Messias fazer-lhe ver a “imprudência” de permitir que os meninos de Cantagalo jogassem com os de Cordeiro. “Vai correr sangue! Vai correr sangue”! bradava “Batistinha”, as faces trêmulas. Messias aproxima-se: “O professor Batista não está exagerando, não está sendo um tanto pessimista?” “Pessimista? Batistinha rebate. “Lavo as minhas mãos! Lavo as minhas mãos!”
Messias, então, sugere que se fizesse uma consulta democrática entre estudantes e professores de seu colégio. Os estudantes ganharam Professor Batista foi voto vencido.
E se feriu a partida no campo do Cordeiro, terminando em zero a zero e um curativo na testa de um aluno de Cantagalo.
“Poderia ter sido pior”, o professor Batista não dava o braço a torcer. E desce o pano...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O 1º de abril de 1964

Marechal Paulo Torres

O 1º DE ABRIL DE 1964

1º de abril de l964. O Brasil amanhecera sob um golpe de estado, com o presidente João Goulart encurralado pelas forças de um poder emergente costurado por civis, entre eles Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, que era governador de Minas Gerais. Lacerda pretendia com seu apoio aos militares golpistas suceder a João Goulart, o qual, quando a chamada Revolução Redentora mostrava as unhas, já preparava sua viagem ao exílio, por mais que Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, tentasse convencê-lo a tomar uma outra decisão, mais digna, ou seja, transferir o poder da República, provisoriamente, para o Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Brizola oferecia-lhe amplo apoio militar e civil, tanto do poderoso III Exército como da força policial de seu Estado. Além disso, haveria dois fortes escudos a protegê-lo e que eram o governador Miguel Arraes e Francisco Julião, criador das Ligas Camponesas, em Pernambuco e com ramificações por outros Estados.
Goulart, no entanto, preferiu entregar o governo a ver seu país mergulhar numa guerra civil de conseqüências imprevisíveis, como achava que aconteceria se aceitasse a oferta de Brizola. Todavia centenas e centenas de posseiros armados de foices, ancinhos e outros instrumentos agrários aguardavam à hora, que não chegou, de entrar em ação, formando nas colunas de resistência iniciadas pelas Ligas Camponesas de Julião.
Niterói era capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Naquele primeiro de abril, eu e outros jornalistas além de alguns políticos encontrávamo-nos no Palácio do Ingá, sede do governo fluminense, na sala de espera ao lado do gabinete do então governador Badger da Silveira, onde funcionava um serviço de rádio que àquele dia recebia, passo a passo, as informações de Brasília sobre a marcha dos acontecimentos. O ajudante de ordens de Badger trazia essas informações para a imprensa ali reunida.
Súbito, as informações vindas pelo serviço de rádio do Palácio cessaram. Entreolhamo-nos, a pulga atrás da orelha. Ainda esperamos mais um pouco, na esperança de que viesse alguma nova informação, mas o ajudante de ordens fechara-se em copas no gabinete do governador. E um por um dos presentes na sala foram saindo em silêncio. Se havia X-9 naquele grupo não cheguei a saber. Cuidei de ir direto para o centro da cidade, parando por instantes diante de um grupo de militantes políticos que comentavam com entusiástico otimismo o avanço, como acreditavam, das forças leais a João Goulart. Imediatamente, após dizer que vinha do Palácio do Ingá, fiz-lhes ver que, àquela altura o presidente estava fora do governo e que o melhor que poderiam fazer era procurar refúgio em algum lugar seguro. Não demorou, o grupo se dispersava. Na calçada defronte ao prédio onde funcionara, ostensivamente, o Instituto Cultural Brasil URSS, na Avenida Amaral Peixoto, sua fachada permanecia, com todas as letras do instituto em que estudara o russo juntamente com um padre, dois médicos, outros profissionais liberais e duas moças, filhas de um construtor muito conhecido na região e que ajudava financeiramente o “Partidão”. Pela mesma calçada vinha nesse dia o temível Joaquim Metralha, presidente da Liga Anticomunista do Estado do Rio, portando duas sub-metralhadoras Ina, uma em cada lado, um bloco de papel e uma caneta para anotação dos nomes e endereços daqueles que lhe parecessem, ou a seus informantes, subversivos. Havia sempre alguém aproximando-se dele a fim de colaborar com Metralha na relação das residências que haveriam de ser visitadas ou arrombadas.
Foi uma noite de terror aquela de lº para 2 de abril de 1964. Algumas residências, os terroristas de direita encontraram fechadas, e as arrombaram, como, por sinal, fizeram em meu apartamento, dir-se-ia a patas de cavalos. Ficaram p. da vida por se depararem com as estantes das bibliotecas completamente vazias, e cuspiram no vazio... É que muitos dos visitados pela gestapo de esquina haviam se prevenido, ensacando livros e revistas e os levando para as malas de seus carros para descarregá-los bem longe, onde só se ouviam grilos, espalhando-os pelas margens de estradas praticamente cobertas de matagais. O Dr. Augusto Cunha, meu tio, não teve a porta de seu apartamento em Icaraí arrombada, pois a deixara aberta a fim de facilitar a entrada dos policiais e evitar ter que providenciar uma nova fechadura. Neste caso, nem voltaram os olhos para sua biblioteca.
Levaram-no, contudo, para a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio, na Avenida Amaral Peixoto. Não tardou que Elza, sua mulher, chegasse de táxi com um colchonete e roupa de cama. “Zelosa, hein?...”, dizia um X-9 a um policial. E o Dr. Cunha foi deixado numa sala da Secretaria de Segurança. Da janela da sala se via embaixo, no térreo, com toda nitidez – contaria o Dr.Cunha, terminado o pesadelo – um dos lavradores do interior fluminense acusados de ligações com as Ligas Camponesas de Arraes e Julião apanhando com as mãos água da descarga de um vaso sanitário, para beber.
Amanhece. Batem na porta da sala dizendo que acabara a mordomia. E o Dr. Cunha foi encaminhado ao Estádio Caio Martins, transformado em prisão política. Lá encontra vários médicos, seus colegas, engenheiros e outros profissionais liberais seus conhecidos. O meu pai, Aristides Gonçalves, se incumbira de levar diariamente um almoço para tio Augusto no Caio Martins, preparado por minha mãe, Chiquita. Ela e o Dr. Cunha foram criados juntos, na Fazenda do Sobrado, no distrito cantagalense de Boa Sorte.
Quanto a mim, a pular o muro de uma embaixada, preferi sair de óculos escuros, pegar um táxi em companhia de minha primeira mulher Deró, já falecida.
O táxi nos levou até pouco além do bairro Maria Paula, que àquela época tinha mato por todos os lados. Estacionamos rente a uma cerca aparentemente intransponível. Descemos e fomos a pé mais em frente, até chegarmos ao ponto em que sabíamos estar a cerca de acesso ao sítio escondido, de comadre Lourdes, nossa lavadeira de muitos anos.
O sítio, todo arborizado e plantado, tinha início junto a uma imensa pedreira, que dava a impressão de pendurar-se nas nuvens. “Ninguém mais põe os pés aqui, só Deus, porque é o fim do mundo..., dizia-me Agapito, marido de comadre Lourdes. E lá permaneci até o momento em que era informado de que já poderia voltar, sem susto.
Passam-se algumas luas e têm início as nomeações para os governos dos Estados. É nomeado governador do antigo Estado do Rio o marechal Paulo Torres, de centro e cuja honradez era amplamente reconhecida, em especial entre as esquerdas, que puderam, assim, respirar. Com efeito, Paulo Torres, seguido por seu irmão, o jornalista e político Alberto Francisco Torres, logo que assumiu o governo fluminense mandou libertar todos os presos políticos recolhidos ao Caio Martins. Para o marechal, pelo menos no Estado do Rio a ditadura havia expirado, prosseguindo a caça às bruxas em outras partes do território nacional, infelizmente, fora da alçada de Paulo Torres. Este, inclusive, após assumir a presidência do Senado federal pautou seus atos na defesa da democracia, com discursos inflamados em favor de justiça social, a ponto de preocupar, às vezes, seu irmão Alberto Torres, como diretor do diário O Fluminense. Nessa ocasião eu editava a página de política do jornal, quando o Dr. Alberto, assim o chamávamos desce do seu gabinete até à Redação, senta-se a meu lado e estica para mim um longo telex. Olho: era um discurso do marechal-presidente do Senado e que bem podia ter sido pronunciado por alguém de esquerda, não digo extremada, porém numa linha francamente legalista. Coçando a cabeça, Dr. Alberto quis saber minha opinião como editor da página onde deveria sair aquele pronunciamento. “Não vejo nada demais em publicá-lo”, opinei. “Você acha?”, Dr. Alberto ainda incrédulo. “Acho que devemos publicar”, reforcei. “Afinal, é meu irmão... Se não publicar, vou-me ver com ele...” E decidiu: “Se você acha...Publique-se!”
Dr. Cunha, não mais perseguido, passara a admirar o marechal Paulo Torres, em quem votaria sempre que houvesse eleição e ele fosse candidato”.
Conversa de rua:
─E que teria sido feito de Joaquim Metralha?
─Apareceu morto em seu sítio para os lados de Cachoeiras de Macacu, dizem. Morto por ladrões.
- Huum... Sei lá...!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Algumas cenas



1. As irmãs

Cearense típica do agreste, Ana Guerra comprara uma casa na Baixada Fluminense, pelos lados de São João de Meriti, já encontrando como inquilino um gato e sem que lhe faltasse companheira à meia luz
Surge a ninhada. Chamam a atenção de Ana Guerra dois filhotes branquinhos, os olhos de uma perfeição aureolada a pincel de um Leonardo Da Vinci. Passasse alguém perguntando quanto era cada filhote, respondia invariavelmente com toda firmeza: “Nenhum deles está à venda”. Consigo mesma, murmurava: “Muito menos as duas irmãs; o tempo da escravidão já passou, as sinhás que aguardem uma outra oportunidade...”
Finalmente, entra em contato conosco em Niterói, após pensar maduramente a quem deveria confiar aquelas gatas, pois queria garantir um bom futuro para elas, sem vassourada, na certeza de que teriam um tratamento de seres da Natureza. Assim, ajeitou-as numa confortável gaiola e as trouxe.
“Por que duas?”, pergunto. E Ana Guerra: “Uma fará companhia à outra” Recomendou-nos que pingássemos, somente aquela vez, à chegada, um colírio nas gatas, uma gota em cada vista. Pinguei o colírio de euphrasia."Tanto faz... - disse ela. Pusemos, depois, no
chão dois pires com leite para as irmãs, que acabaram se lambendo, uma lambendo a outra.
E uma passou a se chamar Shana; a outra, Meg.
Não havia como não distinguir uma da outra, porque Shana ganhava corpo, crescendo mais que Meg, que se mantinha delgada, levando, às vezes, uns cascudos da irmã, da mesma idade, para que tomasse tenência, a fim de que seguisse franciscanamente as normas que o novo ambiente impunha. Uma vez, Meg resolveu aventurar-se a um – ainda bem que – breve passeio pelo telhado. Em baixo, ao vê-la seguir em frente, gritei: “Meg! Meg!”. Ela virou-se e me olhou longamente. Então, recuei para trás de uma parede como se a deixasse fazer o que quisesse.. Não demorou, sem que eu a visse descer, ali estava ela, de novo, ao meu lado. Não faça mais isto! - a repreendi. Não sei se ouviu, ou entendeu. O facto é que nunca mais repetiu a aventura de pisar no que chamam aí fora de mundo-cão.
Falece minha primeira mulher e as gatas ajudaram-me a superar o vazio. Ao fim do dia saía minha empregada, eu voltando à noite do trabalho, Shana e Meg sempre à minha espera. Se eu ficasse até mais tarde escrevendo no computador, as duas logo puxavam minhas calças como avisando-me: “É hora de ir dormir".
E eu obedecia.
Caso-me de novo e minha nova mulher toma a frente das obras de reforma do prédio construído com óleo de baleia segundo os mais antigos do Ponto Cem Réis de Santana, as quais de há muito eu vinha adiando. Chega o Pom, o gato deixado por minha mulher em sua residência no Rio. Ela soubera que o Pom andava muito caído, doente, e que, segundo o seu veterinário, se ela o conservasse no Rio o gato acabaria morrendo de tédio. Em Niterói, Dra. Maria da Glória e seu marido, também veterinário, Dr. Murad, fizeram um tratamento intensivo no Pom e ele se restabelece, inclusive após a extração de cinco dentes. E vem Bellynha, escolhida de uma ninhada que alguém largara dentro de uma caixa de sapatos à porta de casa, tendo os demais filhotes sido distribuídos via Internet a vários interessados, por doação. Completara-se a família felina, Bellynha a juntar cacarecos a um canto da casa para brincar à noite. Ah! Quanto a Shana e a Meg, Ana Guerra presume serem elas da raça ou descendência angorá, devido ao pêlo farto.


2.Água do Paraíba

Espalharam a certa altura do governo Chagas Freitas que a água do rio Paraíba estava contaminada. E, além de váríos copos levados do Palácio Guanabara para quem quisesse usá-los na prova da água acompanhando o tão aguardado estalido de língua do governador do Rio de Janeiro, dirigiram-se para lá batalhões de fotógrafos, cinegrafistas e funcionários do gabinete de Chagas E o cercaram à espera de que ele mergulhasse o seu copo em tão mal faladas águas. Enfim, ouve-se dele um sonoro gole. E Chagas sorri: “Estão vendo? A água é boa!”
De plantão por perto, uma ambulância. Para a eventualidade de alguma turbulência...


3. O psicotécnico.

Zé Grande, um dos repórteres mais conhecidos, e vistos, da região do Grande Rio, por guardar na ponta da língua praticamente todos os telefones dos distritos policiais, inclusive das delegacias do interior, nomes de ruas, praças, morros, localização de biroscas et caterva, e por sua altura olímpica – de salto a distância – era de toda confiança do governador Chagas Freitas.
Certa vez, no Departamento Social de O Dia, com o propósito de avaliar e melhorar o nível dos jornalistas decidiu-se contratar uma equipe especializada em teste psicotécnico E foram sendo chamados, um a um, os jornalistas para a avaliação, obedecendo-se, naturalmente, a uma agenda.
Encerrados os testes, chega à mesa de Manuel Abrantes, então na chefia de reportagem de polícia, um memorando, que ele lê entre risinhos proféticos. Convoca: “Zé Grande, compareça ao Departamento Social!”
E lá foi Zé Grande... Sem saber que iria receber as notas de reprovação no psicotécnico. No mesmo dia, chega a ordem de Chagas Freitas para que fosse dispensada dos serviços a equipe que ousara reprovar o Zé Grande.


4. Passarinho diz

No Jornal do Brasil, onde fui repórter durante muitos anos, na Sucursal de Niterói, quando também trabalhava em O Fluminense, como redator, sem prejuízo de minhas funções de revisor do Diário da Assembléia Legislativa, funcionário deste poder, junto ao Diário Oficial do Estado, sou escalado, com o repórter fotográfico Braz Bezerra, para cobertura de um seminário do Ministério da Cultura em Volta Redonda. Fazia, ainda, o fechamento, ao cantar dos galos, de um noticiário radiofônico, o Jornal do Estado do Rio, de propriedade do radialista Zoelzer Poubel, que chegou a eleger-se deputado estadual por um mandato
(O Poubel dos ventiladores, aquele que, um dia, sem um níquel no bolso e muito menos no banco para pagar em espécie, metade que fosse, o salário de seus funcionários, não teve outra alternativa senão quitar-se conosco livrando-se dos ventiladores de teto que uma firma anunciante lhe deixara no valor do que lhe devia. Oriovaldo Rangel, secretário de redação, foi logo garantindo seus dois ou três ventiladores dentre os que cobriam todo o espaço da sala de um prédio cujo gabarito remontava às primeiras construções da Avenida Amaral Peixoto. Solução de judeu a do deputado Poubel e que,portanto, não deixou ninguém sem o que abanar-se...
Retomando a esticada à Cidade do Aço a serviço do Jornal do Brasil, O seminário seria realizado no amplo auditório da Companhia Siderúrgica Nacional, instalando-se pela manhã, com intervalo para almoço e, mais tarde, o encerramento.
O primeiro a discursar foi o ministro interino da Educação; o titular viajara ao exterior. E ele, mal inicia o seu discurso, já o diligente assessor de imprensa do ministro as Justiça, Jarbas Passarinho, que marcava presença naquele evento educacional distribuía cópias aos jornalistas do que Passarinho falaria em seguida. Peguei logo a minha e me dirigi sem perda de tempo à sala de comunicações da CSN. Como havia feito um breve mas proveitoso curso de digitação por telex na Avenida Brasil, dentro do programa de aprimoramento e especialização do pessoal de redação do JB, não me foi difícil transmitir em poucos instantes a matéria para a sede do jornal, sem que deixasse de registrar algumas palavras do ministro interino da Educação apanhadas no ar.
Eu e Braz Bezerra, mais o motorista do JB, nos recolhemos ao hotel com a consciência tranqüila de havermos cumprido mais uma missão como mandava o figurino...
De manhã, bem cedo, batem à porta do quarto. Braz Bezerra, que se barbeava, foi ver quem era. E virou-se para mim: “Estão lhe chamando lá em baixo. Parece ser urgente. Ih... Vem chuva, pelo falatório”.
“Já vou!”, respondo, acabando de aprontar-me.
E desço ao saguão, degrau a degrau. Esperava-me de pé o interino, o JB aberto bem na minha cara. Por pouco não esfrega o jornal da Condessa Pereira Carneiro nas minhas ventas. Lia pausadamente e com uma exclamação de sua autoria a manchetinha de página:
-Passarinho diz!”
O homem estava furioso. Achava que eu havia posto azeitona na empada do Ministro da Justiça, passando-lhe o chapéu de dono da festa na Siderúrgica. “Passarinho diz... Só o que faltava!”.
Volto ao auditório da Companhia Siderúrgica Nacional para o encerramento oficial do encontro. Lá me esperava, desta vez, o professor Luiz Gonzaga Malheiros, de quem fui aluno no Colégio Modelo, de Nova Friburgo. Malheiros fazia, agora, parte da comitiva do ministro da Educação a Volta Redonda. Escoada a tormenta, Malheiros aproxima-se: “Que papelão, hein, Gonçalves! Ele nem esperou pela leitura das resoluções... Saiu de fininho, quem sabe para se queixar ao Nascimento Britto...”



5. um prédio ao fundo

O trem da Leopoldina, no retorno de Portela – que era o fim da linha no ramal do Centro-Norte do Estado – entrava em Nova Friburgo pelo lado esquerdo da Praça Getúlio Vargas. Apitando e batendo o sino de alerta para a passagem de nível, logo adiante. Bem próximo a um sobrado onde eu morava em quarto de aluguel enquanto fazia o curso científico no Colégio Modelo, dirigido pelo professor Messias de Moraes Teixeira. A poucos passos dali se via um largo, ao fundo do qual notei que havia desaparecido como por encanto pequeno prédio que servira de sede dos escoteiros friburguenses durante anos e que fora, agora, desativado, face à construção, em outro local, de uma sede nova. Mas o velho prédio, até então, parecera-me ainda em boas condições. Tanto assim era que um dia o professor Malheiros trouxe para mim a chave daquilo que poderia servir-me como escritório para meus estudos e minhas produções literárias.
Ocorre que na véspera do desaparecimento daquele meu escritório, durante a noite, dormindo em minha casa em Boa Sorte, onde costumava passar o fim de semana com meus pais, presenciara em sonho o desabamento do prédio dos escoteiros.
A isto não se dá nome de premonição? Coisa que parece ter principiado quando ainda pequeno, em Boa Sorte, onde meu pai tinha um armazém de secos e molhados e meu quarto, sala de estar durante o dia, ficava a dois braços de uma parreira de uvas.
Meu pai frequentava uma loja maçônica em Cantagalo e certa noite sonhei, meu pai já em casa de volta pelo trem expresso, com três batidas na porta do armazém... “Seu Aristides! Telefonema de Itaocara!” Era a telefonista do posto de Boa Sorte. E meu pai foi atender, tendo sido avisado por um maçon de que minha tia, irmã de minha mãe, havia falecido. Com a notícia, associei as três batidas na porta de casa a sinais maçônicos.
Além disso, o sonho incluía um vestido preto em minha mãe.


6. Um velório Kafkiano

Já soube de algum velório de pessoa comprovadamente viva? Tirantes os casos especificamente novelescos ou de catalepsia?! Pois assim aconteceu. Comigo
Uma queda acidental da cama durante o sono, tive o crânio fraturado, o sangue a escorrer pela testa, como se eu houvesse sido acometido de terrível pesadelo.Grito, e não me faltaram forças para ir ao espelho avaliar os ferimentos. Já minha mulher estava a meu lado, juntamente com minha cunhada e uma sobrinha. Sem perda de tempo, colocam-me dentro de meu carro, um Ford kA casualmente estacionado na calçada de minha casa e a cunhada foi dirigindo. Levam-me diretamente para o Setor de Emergência do HCN, Hospital das Clínicas de Niterói. Lá, submetem-me a vários exames, passando pela tomografia computadorizada e a ressonância magnética, após alguns curativos, tudo coberto pelo Ipalerj, o meu plano de saúde.
Nem imaginava que meu enteado mais novo, ao passar pelo Ponto Cem Réis e notar minha ausência por longas horas, descobrindo depois que eu me achava hospitalizado, pudesse entrar furtivamente no imóvel que custara meu suor de anos e apossar-se dele, trocando inclusive todas as chaves, não se sabe exatamente como – se chamando diretamente um chaveiro sem que provasse ser proprietário da casa ou através de uma ex-empregada minha que tenha levado a chave do portão por algum motivo.
Como se isso não bastasse, acompanhavam-me no HCN a minha mulher, a cunhada e minha irmã, freira da Ordem das Dorotéias, que viera de São Paulo, quando, inesperadamente, desata em redor do meu leito hospitalar uma nuvem de gente que havia invadido meu imóvel no Ponto Cem Réis e que, uma vez descoberto meu paradeiro, iniciava um plantão no HCN, à espera, tudo indicava, do meu desenlace. Minha mulher e minha irmã procuravam por todos os meios impedir que o enteado ou alguém a ele ligado chegasse até meu leito para informar-me que haviam ocupado o prédio do Fonseca e ali passado a morar. Minha família receava que eu sofresse um infarto ao ter conhecimento da ocupação. Assim, fui informado muito depois e por minha família, que me prepararam para isso.
Os exames a que me submeteram acusavam um hematoma gerado, do lado direito da cabeça, pela queda que levara, o que exigia o procedimento cirúrgico de uma drenagem do sangue acumulado. Entra em ação uma equipe cirúrgica de alta competência e especialização, chefiada pelo Dr. João Márcio. Antes que ele iniciasse a intervenção, o alertei: “Doutor! Não quero anestesia geral, por favor!” (Eu queria ver tudo, sentir tudo, por mais fortes que fossem as dores) Ele me respondeu: “Fique tranqüilo, vai ser anestesia local” Eu temia morrer anestesiado. O mesmo pedido eu fizera muitos anos atrás, ainda garoto, em Nova Friburgo, na Casa de Saúde do Dr. Mário Sertã, aonde meu pai me levara para uma operação do apêndice. O cirurgião era o próprio Dr. Mário Sertã, que me tranqüilizou: “Fique bem atento que vou lhe contar umas boas anedotas”. Logo à primeira, ele inflou as bochechas. Ao mandar-me para casa, recomendou todo cuidado para que nenhum ponto arrebentasse. Deixei passar uns dias e, com saudade da bicicleta, arrisquei-me a pedalar um pouco. Foi a conta: arrebentara-se um ponto. Entanto, sem maiores problemas. Lá estava, em Cantagalo, o meu tio Euclides (Euclides Santana Moreira) para fazer os curativos e, mais tarde, para retirar todos os pontos sem que houvesse necessidade de retornar ao Dr. Mário Sertã. Tio Euclides era um grande farmacêutico, que bem podia substituir eventualmente um médico, caso lhe fosse concedida pela autoridade competente a devida autorização. Criador de fórmulas para várias enfermidades, dir-se-ia milagrosas, cresceu no conceito dos cantagalenses de tal modo a justificar-se uma placa com o seu nome numa rua ou praça da Cidade dos Melros, que é Cantagalo.
De volta em pensamento ao Hospital das Clínicas de Niterói, eis-me diante do Dr. João Márcio, que acabara de receber, por sinal, justos elogios de um assistente por ter sido a cirurgia bem sucedida, ao que o cirurgião não se fez de rogado e abre um largo sorriso, orgulhando-se: “Eu sou eu!” Daí minha mulher tê-lo apelidado, em bom tom e hora, por gratidão pelo que fizera por mim, de Dr. Estrelinha, ao ouvi-lo gabar-se do sucesso da cirurgia. E com toda aquela gente sufocante ao meu redor, sem que arredasse pé, a tentar romper a barreira formada por minha irmã, a cunhada e minha segunda mulher, Franz Kafka talvez escrevesse que tinham montado um velório sem castiçais.


7. O cajado

O mais curioso, estranho, inusitado é que, ao término das visitas aos internos, um grupo de evangélicos dizia ter visto, com os olhos bem abertos, à saída da UTI, um homem de idade avançada, cor branca, a balançar um cajado. ”O que quer você mais?”, bradava este homem, de pé na Recepção, para o enteado mais novo. “Você já roubou a casa dele e agora quer matá-lo?!”
Não conseguimos identificar este homem, cuja barba pendia muito branca, conforme a descrição feita pelos evangélicos, de cuja idoneidade não levanto a menor dúvida. Sou de formação católica e somos todos cristãos.



8. As mãos

Um dos assistentes do Dr. João Márcio impressionou-me sobremaneira pelo tamanho das mãos, porém em estrita proporcionalidade anatômica à sua altura, de um remanescente escrito de alguma das mais antigas civilizações da América Espanhola.
Assaltou-me de imediato o que fariam aquelas mãos em mim Mal não seria. Além do mais, aquele assistente cirúrgico era compatriota de Hugo Chaves, presidente da República Bolivariana da Venezuela, a quem sempre admirei por suas
posições antiimperialistas e de solidariedade com os povos irmãos do continente Sul das Américas.
Na véspera da retirada do dreno de minha cabeça rachada, o médico assistente venezuelano teve amável conversa comigo e comunicou-me, referindo-se à drenagem do hematoma: “Amanhã pela manhã vou livrá-lo dessa tortura”. A sangue frio, quer dizer, com anestesia local, como eu fazia questão que fosse. Amanhece e submeto-me, na sala de cirurgia, àquelas mãos enormes do venezuelano a puxarem a tortura com pulso firme e exemplar perícia. Com anestesia local, foi uma dor só; teria sido bem diferente, muito mais doloroso, acredito, se fosse geral...




9 - Linha de fogo

Aos primeiros relâmpagos já se abria um sem-número de guarda-chuvas, ouve-se um estrondo a um canto lúgubre do céu, que se acinzentara, uma carga de chuva desabava, trovões e relâmpagos entrecruzavam-se, cenário de fim dos tempos. De repente, traiçoeiro, um raio que se partira deitava por águas em fora à nossa frente. Tínhamos saído ainda há pouco de enorme barca da Cantareira que rangia no ancoradouro da Praça Araribóia.
A linha de fogo que se formara em baixo seguia seu curso assustador perseguindo passageiros no desembarque, a correr pelo meio-fio da calçada direita do Restauraante Miramar. Corríamos, todos, guarda-chuvas abandonados pelo chão, eu já sem saber por onde andava, até que me vi diante de uma porta de aço entreaberta. Ufh! Entro. Era o tradicional Café Santa Cruz. Eu emudecera completamente, não conseguia articular uma só palavra. O garçom esperou já pondo um copo sobre o balcão. Dirigi-me a ele por sinais com as mãos, mostrando-lhe na prateleira uma garrafa de vermute e outra, de cachaça. E fiz com os dedos o sinal do traçado com as duas bebidas bastante conciliáveis naquela situação.
Só assim voltei a falar.


10. - O necrológio

Dificilmente se via um plenário tão cheio como nesse dia em que chegara a notícia de um acidente aéreo ocorrido, falava-se, próximo a Macaé, tendo como uma das vítimas um funcionário da Assembléia do antigo Estado do Rio, o qual trabalhava no setor de Segurança da Casa. Um negro simpático, alto, muito conhecido, que costumava acompanhar o deputado Vasconcelos Torres em suas andanças de campanha eleitora e, a exemplo de Vasconcelos, mudar um bom charuto de um canto a outro da boca, o que indicava uma ligação afetuosa entre os dois. Macaé era um dos redutos eleitorais preferidos de Vasconcelos Torres, que sempre quando lá ia, acompanhado do seu Segurança, não deixava de tomar uma talagada do uísque escocês que guardavam para ele no bar do Hotel Imbetiba - um hotel, pelo menos àquele tempo, pertencente ao Sesc e encravado numa pedreira que emergia de águas do Atlântico, coisa de cinema... parecia - juntamente com o seu fiel auxiliar, e, de lá, por vezes, partia para visitas a biroscas da região, onde acrescentava umas cachacinhas, acompanhado por fregueses desses estabelecimentos. Correligionários, a rigor, ou eleitores atraídos pela biritagem.
O plenário lotado, o deputado Vasconcelos Torres sobe à tribuna e faz o necrológio do funcionário com grande emoção, derramando-se em elogios a ele, a enxugar a todo instante, com um dos muitos lenços que lhe estendiam, as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. ..."Um funcionário exemplar, com uma larga folha de serviços prestados à Assembléia, ao serviço público, sem que faltasse um dia ao trabalho"... E por aí seguiu o seu discurso emocionado.
De repente, um acotovelamento junto ao portão da Assembléia, seguindo-se o desmaio de dona Filhinha sobre o balcão do setor de Segurança. É que voltara o Segurança dado como morto na tragédia aérea de Macaé. Ele próprio carrega dona Filhinha até o gabinete médico para que fosse atendida. E dona Filhinha recupera os sentidos com uns tapinhas nas faces e umas gotas num pouco d'água para segurar as coronárias, os dois se abraçam e o Segurança a quém Dona Filhinha substituía nos atendimentos ao público em sua ausência relata o que havia de fato sucedido: perdera o seu vôo de retorno a Niterói, tomando, então, um outro.


11. - Primeira Dama

Pelo testemunho insuspeito de Edmar Morel, insuspeito por tratar-se de um dos maiores repórteres que já teve o país, que foi perseguido, por lutar contra o Estado Novo, Getúlio Vargas foi um dos poucos homens públicos de que se pode orgulhar o Brasil em termos de honradez, honestidade, de lisura no trato da coisa pública. No Palácio do Catete, os filhos ainda pequenos, ele os mandava para a escola, de bonde, sob protestos da Primeira Dama dona Darcy Vargas, que replicava: “Assim é demais, Getúlio!” Julgava-o exceder-se na educação dos filhos não chamar um dos automóveis que lhe serviam no palácio para levar as crianças, ao que Getúlio justificava-se: “O exemplo deve vir de casa. E além de Edmar Morel que fechando uma reportagem histórica sobre Vargas revelava que o grande caudilho deixara todos os seus bens penhorados”, Barbosa Lima Sobrinho, que presidiu a Associação Brasileira de Imprensa por longos e profícuos períodos, outro velho adversário político de Getúlio, a certa altura de seus mandatos, irretocáveis, penitenciou-se dos ataques que fizera nos albores de sua vida pública a Getúlio Vargas, agora o reconhecendo um dos homens mais íntegros da história pátria.
Darcy Vargas, por sua vez tinha como menina de seus olhos a Casa do Pequeno Jornaleiro, uma de suas obras sociais que, ao lado da LBA, Legião Brasileira de Assistência fazia com que a Primeira Dama não esquecesse que era também uma dona de casa como outra qualquer, pelo amor como tratava os pequenos jornaleiros sob sua guarda, a ponto de nos fins de semana ir aquela instituição, que fica atrás da Praça Mauá, pegar na vassoura e num balde d’água, panos e outros apetrechos de limpeza, sem a menor cerimônia...
Passada a era Vargas, nenhuma outra Primeira Dama chega aos pés de Darcy Vargas, e o pior é que uma de suas sucessoras, Rosane Collor, Primeira Dama do governo Collor de Mello, encerrou as atividades da LBA, que se estendiam por todo o território nacional.
Os exemplos mencionados vêm a propósito da época em que vivemos após Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Uma época caracterizada pela maracutaia, venda de votos no Congresso Nacional e outras diatribes do sistema, como os escandalos na Previdência Social.


12 - O despachante

Em redor de uma banca de jornais de Nova Friburgo, bem ao lado do Restaurante Atlantic, próximo ao qual se erguia o prédio-sede da Academia Friburguense de Letras, onde o acadêmico e médico Rudá Brandão Azambuja deixou versos condoreiros polêmicos, que alguns críticos consideravam coisa do passado, como “OH, esponsais do eterno!”, costumavam se reunir nos fins de tardes, além do Dr. Rudá, o também acadêmico e político Nelson Kemp e sua gravatinha borboleta à la Brício de Abreu, colunista de rádio no memorável Diário da Noite antes de encurtar para tablóide, Nelson Kemp sempre presente com um soneto na primeira página das edições dominicais do jornal A Paz, semanário udenista que se editava na cidade em oposição ao pessedista A Voz da Serra, de Américo Ventura,liberal. Havia também outro periódico local, de propriedade de Juvenal Margues e cujo nome foge-me agora. Na Voz da Serra eu escrevia semanalmente a Coluna do Parlamento. Era a coluna do Parlamento Estudantil de Nova Friburgo, um parlamento de estudantes, principalmente do Colégio Modelo, fundado há muitos anos por iniciativa de Élio Sólon de Pontes. Em meu tempo, era presidido por Fernando Ventura.
Um dos que paravam, também, para falar de política junto à banca de jornais da Praça Getúlio Vargas era um despachante muito conhecido na cidade cujos tiques nervosos chamavam a atenção de qualquer pessoa que por lá passasse. Um belo dia, o poeta condoreiro Rudá, que conciliava sua dedicação à lírica com a medicina, olhou fixamente para o despachante e, dando-lhe uns tapinhas no costado, descarregou: “Ainda vou lhe pôr curado destes tiques nojentos!”
E não foi mesmo? Passa-se o tempo, encontro-me no Rio com o despachante e ele se posta diante de mim; espera um pouco pela minha reação e indaga, feliz da vida: ”Não está notando nada diferente em mim?” Só fiz abraçá-lo.
E ele: “O Dr. Rudá me corrigiu, me curou”.

13 - Cortado o mal

Eu namorava uma moça que, em conversa amistosa desfiou um caso que o abstêmio acaba engolindo a contragosto. O irmão da moça, tendo ido à praia, pisara numa madeira com um prego enviesado. Não deu maior importância ao ferimento, limitando-se a um curativo de simples topada.
Tarde da noite, já deitado, sacudindo-se de calafrios, grita pela mãe. A irmã chega primeiro e já baixando o mercúrio do termômetro. Acomoda, então, o termômetro debaixo do braço do irmão, aguarda alguns instantes e vê que a febre estava em torno dos 40 graus. Levam-no imediatamente para um posto do SAMDU e o enfermeiro, para o médico plantonista, vai logo dizendo: “O paciente cheira a pinga, doutor!” A irmã do paciente não esconde que ele, a conselho de uma tia em visita à família, virara goela abaixo meio copo de uísque.
“Pois foi a sorte dele!” – disse o médico após medicá-lo adequadamente conforme os preceitos regulares da Medicina, providenciando sem perda de tempo a aplicação da antitetânica, seguida de outros procedimentos afins à enfermagem.


14 - A ferroada

Num domingo desses em que o sol da Região dos Lagos chega a produzir à nossa frente algo como miríades de estrelas, se bem que temperadas por uma neutralizante e carinhosa brisa de mar, sentara-me num banco de pedra de uma parada de meio de estrada em Araruama, à espera de um ônibus de volta para Niterói. De súbito, a modorra a baixar-me lentamente as pestanas qual um paraguaio a relaxar após o almoço, com a diferença de que o paraguaio costuma estirar-se ao chão ou encostar-se numa árvore, por exemplo, e cobrir a cara com um chapéu de cantante sertanejo.
...E zás! Cai uma abelha por perto e ela, em vez de se erguer e continuar seu vôo de rotina, não! Crava uma ferroada em minha mão esquerda... Uui!
Um moço atrás de mim faz rapidamente a identificação: “É fêmea!”
Um mudo ao lado dele confirma balançando a cabeça. E empina o polegar em direção da boca, após agitá-lo para baixo. Repete o gesto. O seu companheiro assume o papel de intérprete: “Ele quer dizer que basta você molhar a mão com uma cachacinha que não sentirá mais dor”.
Corro até minha casa em Araruama, lembrara-me que havia lá uma garrafa de caninha do Norte, abro-a, entorno boa quantidade sobre a ferroada e retorno à parada de ônibus sem mais nenhuma dor.
Chega o ônibus, entro fazendo OK com o polegar, o mudo responde fazendo o mesmo. E seu companheiro - o ônibus já em movimento - levanta a voz: “Não esqueça de tomar umazinha depois que chegar!”.



15 - O gramofone e a paródia


Quando não se tinha outra coisa a fazer: baile na Sociedade Esportiva Friburguense ou na Fábrica Ypu, onde por chegarem mais damas que cavalheiros tomavamn chá de cadeira belas garotas, descomprometidas, para enlaçar ao ritmo de um samba-canção ou de um bolero na voz de Lucho Gatica ou-- de Bievenido Granda –“o bigode que canta” - nos reuníamos, à noite, no Atlantic à espera de A Vida Como Ela É, coluna do dramaturgo Nelson Rodrigues no jornal Ultima Hora, que com a extinção da linha de trem passara a chegar de ônibus. A Vida Como Ela É era a única leitura nossa naquele jornal. Motivo, por vezes, de disputa acirrada quanto a quem leria primeiro. Mário Haiut quase sempre vencia a disputa arrebatando a página de Nelson Rodrigues com uma avidez de leitor de Boccaccio. Além de Mário Haiut, de Rachid Namen, o qual me apelidara de ”doutorzinho”, e o apelido acompanhou-me por muito tempo; de Worms, um colega também no Modelo, operário da Fábrica Ypu com vocação para líder sindical, paravam junto às nossas mesas no Atlantic, às vezes, o poeta Sertório Canedo Neto e Hélio Albano, que aproveitava as noites mais frias de Nova Friburgo para meter-se em pesados casacos glaciais e sair pelas ruas da cidade posando de Rasputin. Moço de uma inteligência invulgar, culto, estudioso, conhecedor profundo de Literatura russa, Hélio Albano pegava aos domingos, pela manhã, o seu gramofone de toda estimação, e alguns discos de clássicos da música russa, indo recolher-se a uma sala do Colégio Modelo, na Praça do Suspiro, estirando-se sobre um tapete para ouvir, monasticamente, as suas músicas preferidas.
Na Rádio Sociedade de Friburgo, o nosso Parlamento Estudantil, sob a presidência de Fernando Ventura, obtivera autorização do diretor da emissora, Aloysio Moura, para apresentação de um programa de variedades. Havia até radioteatro, e Hélio Albano era o autor principal dos scripts.
No Restaurante Atlantic, não deixávamos de jogar conversa fora, de cometer versos satíricos e outras tiradas irônicas sobre toda uma fauna política, extensivamente cultural. Uma noite, Mário Haiut teve a idéia de parodiarmos um sucesso carnavalesco de Emilinha Borba e que falava em falta d’água. Justamente numa hora em que Friburgo, repentinamente, ficou às escuras. Os assovios, de todos os lados, não se fizeram esperar. O sucesso de Emilinha dizia: “E lá em casa não tem água nem pra cozinhar”...
Haiut deu início à paródia em meio ao blecaute: “Há quanto tempo eu não sei como enxergar”. Emendei: “Não sei se saio de casa ou se vou me deitar”... Com a contribuição de cada um dos presentes às mesas que o garçon havia juntado, a paródia à queixa de Emilinha sobre a falta d’água prosseguiu: “Francamente, a viver nesse negrume/ eu preferia ter nascido vagalume/ Enquanto a taxa aumenta/ aumenta a escuridão/ O povo já não aguenta/ tamanha exploração./ E sofre a cidade / sem iluminação.../ Suspiro, Paissandu, Vila Nova e Bar Ypu”...



16 - Os galos e Jânio

Jânio Quadros era um cultor emérito, exemplar do vernáculo. Até as abobrinhas que soltava uma vez e outra dissimulavam certa elegância de estilo. Pronunciar o ”erre” tocando a língua na parte superior da boca, eis dele um característico bem marcante, talvez o principal. Nas conversas de calçadas, de corredores e de gabinetes do Congresso, citavam-no como “o homem da vassoura”, que se propunha a varrer do país as mazelas.
O galo de briga era-lhe o símbolo das vítimas indefesas. Condenava assim, as brigas de galos como sendo uma barbárie. E Jânio, de uma penada, baixa decreto proibindo terminantemente o funcionamento de rinha de galos em toda e qualquer parte do território nacional. Os galistas se alvoroçaram acusando o presidente de arbitrário, acusando-o de impedir, de obstaculizar a atividade econômica. O uso do broche da vassourinha era moda nos passeios públicos.
O Diário da Noite passara a tablóide e Alberto Dines, que assumira sua direção, em substituição a Orlando Motta, embalado por idéias modernizantes, na linha daqueles que sustentavam a tese de que eram os nomes de colunistas e não, propriamente, as notícias que vendiam jornal, cuidou logo de contratar os melhores, de maior renome, colunistas do Rio. O primeiro a fechar contrato com o Diário da Noite, foi Nelson Rodrigues, mas o antigo espaço de A Vida Como Ela É não demorou a ser ocupado por outra coluna, escrita por um repórter na mesma linha do dramaturgo, sem que a substituição houvesse levado o público, ou parte do público de Ultima Hora para o Diário da Noite
Com todas essas mudanças, fui mantido no jornal de Assis Chateaubriand. Dias antes da proibição, por decreto presidencial, de brigas de galos, sou chamado à chefia de reportagem a fazer a cobertura crítica, com um repórter fotográfico, do funcionamento de uma rinha. Eu e o fotógrafo subimos o Morro da Gamboa. Entramos discretamente, numa espécie de circo muito bem instalado e iluminado, ao qual não faltavam as arquibancadas e ao centro, circundando a rinha, cadeiras preferenciais da platéia. No alto, algo como tribuna, de onde ficava alguém ao microfone comandando a função. Vinham de todos os lados as apostas em um de dois galos a ciscarem dentro da rinha no formato de picadeiro. Um circo psicodélico escrito. Penas a voarem, galos se matando, sangue a escorrer de seus pescoços, soa a campainha, os apostadores vão se retirando, seguem a sua vida normal.
No dia seguinte, correm na redação rumores de que na cúpula do jornal não haviam ficado satisfeitos com a reportagem sobre as brigas de galos. É que um dos diretores do jornal era sócio na rinha. Calazans Fernandes, que era o chefe de reportagem, apressou-se a assumir, perante a alta diretoria, a responsabilidade pela publicação. Enquanto isso, o repórter fotográfico mangava: “De minha parte, as lentes não mentem jamais”.
E Jânio? Acaba enfadando-se de defender os galos, preferindo continuar dedicando-se à última flor do Lácio, inculta e bela”. E à política, um pé cá e o outro lá, sem perder Londres de vista e, bem assim, sua admiração pelo Che. Numa entrevista de televisão, como o repórter lhe perguntasse por que condecorara Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, Jânio respondeu: “Um homem honrado, um sonhador, o Dom Quixote das Américas”.


17 . Capitão Chateau;

A ser verdadeiro o que contavam jornaleiros da Praça Mauá e outras pessoas antigas que costumavam fazer ponto ali pelo Bar do Zica, Assis Chateaubriand pisou terra firme de frente para a Bahia de Guanabara como Cabral em 1500 neste país-continente. Sem Pero Vaz de Caminha para relatar o que Chateaubriand havia encontrado à sua vista e com os bolsos, por assim dizer, furados. Entrementes, encantou-se logo ao primeiro passo com a paisagem e os golfinhos acrobatas. Voltar para o Nordeste, agora que pisei solo que está me cheirando a tão promissor, nem pensar! – devia estar imaginando. Seus biógrafos passantes escreviam nas estrelas que ele começara, no Rio, engraxando sapatos. Da graxa se alça de degrau a degrau até a dono de um império jornalístico, incluindo emissoras de rádio e tevê.
Presenciei, um dia, uma cena curiosíssima ao lado de uma banca de jornais perto do Bar do Zica, quase à entrada do edifício do Diário da Noite, na rua Sacadura Cabral. Um homem aproximou-se da banca, pegou um exemplar de “O Jornal”, que era o mais importante do império chateaubriânico, e o abriu como se procurasse constatar se alguma notícia de especial interesse para ele havia saído publicada, recuou até um poste, com o seu guarda-chuva, o jornaleiro não deixava de olhá-lo mas por outra razão: faltava pagar o exemplar. E cobrou, sem saber que se tratava de Assis Chateaubriand em pessoa, que se virando para o jornaleiro sorriu amarelo:” O jornal é meu, meu filho, não está me reconhecendo?” O jornaleiro pediu-lhe mil desculpas após trocar de óculos para enxergar melhor, e o Dr. Assis lhe responde com uns tapinhas cordiais. Sem que lhe pagasse.
Numa loja de discos de esquina para a Avenida Rio Branco rodavam o Bat Masterson... “No Velho Oeste ele nasceu/ e entre bravos se criou/ uma grande lenda se tornou/ Bat Masterson”...
Braz Bezerra não perdeu a oportunidade de parodiar a musiquinha que se ouviu na Praça Mauá durante muito tempo: “Na Paraíba ele nasceu/ e aqui no Rio se criou/ no jornalismo enriqueceu/ capitão Chateau... capitão Chateau”.

18 – A biografia e os braços abertos

Nelson Rodrigues, em instigante artigo publicado no Correio da Manhã, relacionou algumas celebridades que Deus as tenha, no mundo das letras e artes, sem que lhes faltasse cortejo à altura de suas obras, e outras, ao contrário, com uns quatro ou cinco presentes às despedidas, todos ou quase todos da família.
Nelson deduzia que a cada um que estivesse na fila da imortalidade seria de todo conveniente dar uns retoques à sua biografia após um ecocardiograma ou um eletro, o médico a auscultar-lhe periodicamente as coronárias.
Em suma, de um lado, o cortejo a dobrar esquinas e mais esquinas até serpear pela necrópole, já aí, por vezes, em se tratando de sambista ou de banqueiro do jogo de bicho, o surdo de uma ala de escola de samba no compasso do féretro. De outro lado, uma legião de leitores ou companheiros de um autor que atravessara o Atlântico e o Pacífico com suas obras vão surpreender-se de que ele se fora, por um jornal de tevê.
Estive no velório do poeta Olegário Mariano, que se notabilizou, principalmente, como autor de “O enterro da cigarra”. Foi no salão nobre da Academia Brasileira de Letras. Achava-me lá a trabalho, como repórter do jornal A Noite, a fim de anotar as presenças. Lembro-me que nesse dia caía uma chuva miúda, persistente. Vieram-me logo os versos mais conhecidos, antológicos, do Poeta das Cigarras: “As formigas levavam-na. Chovia./ Era o fim... Triste inverno fumarento”...
Olegário Mariano havia se preparado. Não como Manuel Bandeira, depois, ao escrever o livro “Preparação para a Morte”. Mas, louvando a Deus pelas cigarras, que, assim, continuaram cantando.
E Grande Otelo? Baixo astral no Brasil, já perdendo a fama de um de nossos melhores comediantes, bastou pisar em Paris, ainda no aeroporto, uma comitiva francesa recolhendo-lhe as malas para levá-lo em dois ou três táxis ao hotel onde ficaria hospedado, não resistiu à emoção de lhe terem oferecido a chance de recuperar a popularidade fora de seu país. E as emissoras de rádio e televisão brasileiras correram a montar a biografia de Otelo.
Acho que Nelson Rodrigues escreveu aquele seu artigo no Correio da Manhã muito antes de ter falecido o Zica da Praça Mauá, cujo nome corria de Beca a Meca como um dos maiores contrabandistas que freqüentaram o noticiário do Rio. Seu concorrente mais falado tinha por nome ou alcunha Fernandinho, sem nenhuma ligação, nem genética, com o “Beira Mar” de décadas mais recentes.
O Zica era nos anais fazendários um empresário bem sucedido, dono de hotéis, restaurantes, bares. Conhecido, inclusive, e bastante, no Norte e Nordeste brasileiros. Estava sempre de braços abertos aos nordestinos, que chegando ao Rio, de pau-de-arara, saíam logo à procura do Zica, que os empregava em suas várias empresas.
Comentava-se que os braços abertos de Zica, inspirados no Cristo Redentor, se estendiam à Santa Casa de Misericórdia, na rua Santa Luzia, instituição que ele ajudava. Não afirmo e nem ponho a menor dúvida quanto a isto.
Fato é que seus funerais cobriam toda a Avenida Rio Branco, desde a Praça da Candelária. E entre os que levavam castiçais se viam juízes e desembargadores.


19 - Um tempo sem Oposição

Fui o primeiro jornalista, repórter de A Noite, convidado por Ernesto Silva, a pisar solo do Planalto Central antes da construção de Brasília. O avião partira da área militar do Santos Dumont e viajavam comigo, a bordo de um bimotor da FAB, um técnico da Geofoto, empresa encarregada do levantamento aerofotogramétrico do sítio ideal, expressão da engenharia para definir o local mais adequado às fundações da nova Capital, e um fotógrafo do Ministério da Agricultura.
O coronel Ernesto Silva era o presidente da Comissão de Localização e Mudança da Capital da República, órgão que funcionava num pequeno conjunto de salas na Esplanada do Castelo. Eu passava por lá quase todos os dias à cata de alguma novidade relacionada à mudança que JK fixara para em cinco anos. No Rio, os cariocas em geral não acreditavam na mudança ou queriam porque queriam que a Capital permanecesse rodeada de praias.
O funcionário federal bufava... “Sem praia, bicho, que é isso!?”
Mas nem todos na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro pensavam assim. O mineiro Clemente Luz, por exemplo, talvez porque Minas não tivesse praia, sendo Mar de Espanha simples metáfora, entusiasmara-se com a determinação do conterrâneo JK em construir uma cidade do futuro em tempo recorde. Clemente, redator de A Noite por essa época, era, pode-se dizer, meu padrinho de jornal. Dizia-me ele, quando retornei do Planalto: Já estou saturado de viver de vales e penso seriamente em mudar-me para Brasília, se possível, logo que começarem a bater as estacas. Um pouco mais tarde, confirmava esta sua intenção: ”Não dá pra esperar mais. Vou ser candango, o que for”. Acaba revelando-me que já não tinha como quitar meses de aluguel de um quarto-e-sala na Zona Sul do Rio.
Brasília não havia sido ainda concluída, faltando muito o que fazer, a cariocada do serviço público federal a recusar, solenemente, altas propostas do governo, pelas quais teria o salário duplicado ou até triplicado se trocasse as areias de Copacabana pela vida que muitos aqui embaixo do Pão de Açúcar diziam ser monótona, tediosa, da nova Capital. As propostas incluíam o direito, inclusive, a moradia de parlamentar, pelo menos por algumas luas. O jornalista Clemente Luz, mereceu a oportunidade de corresponder aos acenos de Brasília, se deu bem, como muitos outros à procura de trabalho e bons rendimentos, principalmente mineiros, como ele, Clemente, e nordestinos. Até engravatados se consideravam candangos na hora em que o dinheiro começava a jorrar para seus bolsos ou suas contas bancárias. Quem demorou a ir ou, o que é pior, não foi, arrependeu-se.
O mais interessante, curioso, surpreendente que testemunhei naqueles dias rodando pela vastidão planaltina, ao centro do que se me afigurava imenso campo de pouso uma cruz erguendo-se bem alto a assinalar a localização exata do sítio ideal para acolher uma grande cidade – fora a união repentina, imediata de todos os partidos políticos em Goiânia e localidades vizinhas, como Luziânia, cidade do Brasil-Colônia a riscar a divisa com Minas Gerais. A um vôo de teco-teco para o coração do Planalto.
Pelo menos por lá, a UDN, União Democrática Nacional, e o PSD, Partido Social Democrático, que se engalfinhavam no Rio de Janeiro e em outros Estados da região, além do PartidoTrabalhista Brasileiro, o PTB, formavam juntos com Juscelino Kubitschek. O brigadeiro Eduardo Gomes, pelo comportamento de correligionários goianos, extensivamente planaltinos, era juscelinista por aquelas paragens, como qualquer candango que se prezasse. Não havia, pois, Oposição.


20. Os patins e a bicicleta

Vim a conhecer Tarcísio Tupinambá em Nova Friburgo, casualmente. Eu concluía o científico no Colégio Modelo e era da diretoria do Parlamento Estudantil, que Fernando Ventura presidia com garbo e fluente oratória. Tupinambá passa a vista sobre uns escritos meus, retira de sua pasta, entregando-me, uma proposta de associado da ABDE, Associação Brasileira de Escritores, que assinei depois de ouvi-lo a respeito dos benefícios que a entidade poderia nos trazer, das várias formas de incentivo à literatura, pelo relacionamento, inclusive, com escritores amadurecidos, sem esquecer os jovens a meio caminho.
Ao entrar pela primeira vez na sede da ABDE fluminense, fiquei conhecendo a escritora Gilda Braga Linhares, que deixou um livro inédito – “Sombra de um Vôo”, biografia romanceada de Raul de Leoni - cujos originais desapareceram misteriosamente. Estariam com algum herdeiro do poeta de “Luz Mediterrânea”? Os originais, sem cópia – conforme me dissera a autora na ocasião do desaparecimento - continham farto material iconográfico, incluindo-se algumas poesias manuscritas de Raul de Leoni, a quem dona Gilda, ainda bem jovem, conheceu de perto, de patinar em sua companhia no Rink de Niterói, entregando-se a volteios pela praça. Ali havia, mesmo, um rink de patinação, contou-me Gilda Braga Linhares. E que o poeta tinha bem mais idade que ela, cuja beleza que gente daquela época dizia ser estonteante, clara, chamava a atenção de todos. E que ele, talvez por isso, relutasse em namorá-la.
Graciliano Ramos foi um dos fundadores da ABDE fluminense. Ia de vez em quando a Niterói. Papear com os companheiros do partidão e das Letras. Muito amigo e admirador de Gilda Braga Linhares, que considerava bastante talentosa, Graciliano sugeriu-lhe, um dia, que escrevesse um romance ambientado na pesca em Jurujuba e a vida de seus pescadores. Não escreveu. E Graciliano havia deixado o tema para ela, que na qualidade de secretária da ABDE lavrava com toda desenvoltura, retidão e boa caligrafia as suas atas, a par de uma atividade política intensa, socialista ardorosa que era, sempre correspondendo-se com companheiras de Paris e de outras partes do mundo a respeito do que deveria ser feito em cada país pela libertação dos povos oprimidos, subjugados ao imperialismo.
O tesoureiro era o escritor, português, Sousa do Prado, há muitos anos radicado no Brasil, autor de várias obras, quase todas de ensaios críticos sobre política internacional, uma delas Tartufo Desmascarado”,não raro exaltando a Josef Stalin por suas ações decisivas no sentido de que a União Soviética viesse a tornar-se superpotência em tão pouco tempo. Outro livro de Sousa do Prado, de cunho, segundo suas próprias palavras, espiritista, não propriamente espírita, posto que se considerava o escritor um estudioso da fenomenologia do espiritismo como ciência, relata suas experiências neste campo ao fotografar a aura de diversas pessoas utilizando uma câmera especialmente adaptada para isso. Antecipava-se, assim, ao lançamento pelos soviéticos da máquina Kirlian, destinada a fotografar auras e que logo correu mundo.
Lembro-me de Sousa do Prado a pedalar uma bicicleta olímpica, proporcional à sua altura, aquele que, no basquete, fosse um atleta, seria capaz de fazer quantas cestinhas quisesse sem tirar os pés de campo. Era o homeopata da ABDE a fazer da bicicleta o seu único meio de transporte, a recolher mensalmente dos associados, como tesoureiro e cobrador, suas contribuições para a manutenção da entidade.
Morava longe do centro da cidade, em Buraco do Juca, praticamente no bairro niteroiense de São Januário, onde montara um laboratório de manipulação homeopática sem fins comerciais. Para suas experimentações no diagnóstico e no combate a várias doenças. O câncer, por exemplo, provocava-o nele mesmo, na mão esquerda, porque a direita, ele explicava, tirante, a rigor, os canhotos, era para os cumprimentos. A cada sessão da ABDE, aparecia o escritor homeopata, ora com a mão esquerda enfaixada, ora sem nenhum ferimento nela. Alguém com algum problema de saúde, em qualquer parte do corpo, podia contar com Sousa do Prado, que já na próxima sessão vinha com aqueles seus vidrinhos da homeopatia aos quais não negávamos fé.



21. Ficou o ursinho Misha


Paravam as máquinas de escrever na redação de O Fluminense, o bom e velho Alcides, já aposentado como revisor de textos para o linotipista compor após passarem pela diagramação - há séculos, dizia-se, sem arredar pé do jornal que era sua família – a cada expediente, que não deixava de cumprir como se estivesse na ativa, descansa a sua inseparável Parker 51 sobre a mesa para assistir na tevê à abertura das Olimpíadas de Moscou. O senhor Alcides, a caminhar para os 90 anos, recolhia-se em um asilo mantido pela Beneficência Portuguesa no outeiro da rua da Conceição, próximo ao seu hospital. Não fazia seu trabalho agora espontâneo junto com os revisores de textos já compostos, estes, numa sala da oficina.
De sorte que revisava textos de repórteres e redatores a um canto da própria sala de redação. Gente da oficina que subia à redação naquela tarde por algum motivo parava diante da tevê para olhar um pouco. O senhor Alcides não despegava os olhos de toda aquela imponência dos russos. “E ainda falam deles... – um gráfico comenta a seu lado – que comem criancinhas etc...”. O senhor Alcides esboça um sorriso, até que não se contém: “Com toda esta idade que pesa sobre mim, sinceramente, jamais tinha visto um espetáculo como este, magnífico! Morresse hoje, morreria com a convicção de se tratar do maior espetáculo da Terra, difícil de repetir-se em alguma das próximas olimpíadas”.
Tinha razão. Vieram as Olimpíadas de Los Ângeles, quatro anos depois. Um fiascão, diria aquele gráfico ou, sei lá, não teria dito em sua proverbial irreverência?!. Seguindo-se memorável sorriso do senhor Alcides... Deus o tenha, e perdoe, se puder aqueles que derrocaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Pelo menos, ficou na memória e no coração da Humanidade o ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de 1980, a testemunhar que nem tudo está perdido. Ficou a lembrança da beleza e vigor das danças regionais, que mostraram a história de cada região de imenso e rico território. De uma perfeita coordenação de movimentos artísticos. Sobretudo, o alto nível de conhecimento do que o homem pode realizar pelo bem comum.
As Olimpíadas de Los Ângeles, à diferença, enorme, das de Moscou, apresentaram em sua abertura e no encerramento, como é do feitio do americano do Norte, o quê? Pelo que vimos, de interessante?, nada mais que tristes e enfadonhas réplicas do Velho Oeste com suas diligências e outros arremedos de uma tradição de desbravadores de terras, que não lhes pertenciam, dizimando indígenas, e que, hoje, envergonharia Lincoln.


22 - O engenheiro e o trombonista

Uma parada de trem a lembrar um desses aprazíveis recantos de turismo, localizada a uns dois apitos da sede municipal - Laranjeiras, o Engenho Central convidava-nos para seus bem cuidados jardins, numa praça a que não faltavam balanços e um chafariz. Dr. Péricles, um engenheiro que parecia ter avançado no tempo por suas invenções de alta utilidade, de uma engenhosidade que só o domínio de sólidos conhecimentos de eletrotécnica podia comprovar, era dono de tudo ou quase tudo que havia por lá. De um hospital muito bem equipado, um clube recreativo que nos fins de semana dava bailes animados por conjuntos musicais de cidades vizinhas, uma fábrica de caramelos que empregava praticamente a população local... Falava-se, inclusive, que o meio circulante de Engenho Central era de sua própria criação, ou seja, um sistema de vales, dentro da lei. Com a atenuante de que, caso alguém fosse viajar, não haveria problema: fazia a troca dos vales de acordo com a lei que regulava o sistema financeiro nacional. Ninguém reclamava de estar levando na cabeça... Fato é que, pelas línguas que se batiam, não havia quem desembolsasse coisa alguma por certos serviços públicos, como o hospitalar, a não ser nos atendimentos recebidos saindo-se de Engenho Central.
Eu era rapazola, estudante, quando conheci o pequeno mundo do Dr. Péricles. Funcionários dele levaram-me para lanchar em seu curiosíssimo escritório, ou moradia - não dava para distinguir bem o que era de verdade – e fiquei deslumbrado com o que via: uma faixa rolante de serviços de bar parando à frente de cada um de nós, a deixar micro-sanduíches de queijo e outros recheios, refrigerante e caramelos da fábrica do Dr. Péricles. Olhando mais acima, nova faixa rolante de serviços, desta vez de lava-pratos, talheres e demais utensílios de copa e mesa.
À noite, subo ao palco do clube de Engenho Central como crooner de um regional formado por Helinho, no sax, Joel, no piston, “Biju”, no trombone de vara, e Marcos de Clara na bateria. Interpreto um sambinha supimpa da autoria de “Biju”, agente da estação da Leopoldina em Boa Sorte.
Edson Fonseca, que era responsável pelo hospital do Dr. Péricles, batia palmas. E eu cantando: “Amor é sonho, é fantasia/ é ilusão/ que a mocidade faz viver no coração./ Depois que vem o desengano/ finda a comédia, acaba a farsa, desce o pano”... Lamento não ter guardado na memória a segunda parte, que seguia a linha melódica da primeira com rara singeleza e que bem podia ter-se perpetuado nas vozes de Ísis e Luma de Oliveira, filhas do agente ferroviário que, entre um trem e outro, teve tempo de ser trombonista e compositor.



23 – O cocheiro dos Hegdorn

Se havia em Rufino do que se orgulhar era daqueles dentes firmes e fortes que mostrava com um sorriso de marfim rangendo-os para que todos ouvissem, repetidas vezes, depois de lavá-los, no bochecho, a cachaça do alambique da fazendinha dos Hegdorn. À vista de quem passava na estrada, a fazendinha se destaca por cercar-se de atraente bosque. “Vamos à festa de Santo Antonio?” - ao patrão perguntava, e seu Hegdorn lhe respondia que sim.
Rufino era o cocheiro dos Hegdorn. Ajeita o acolchoado da carruagem para os patrões se acomodarem, dona Célia sobe pelas mãos do seu Antônio, que se apruma na bombacha e sobe. Rufino senta-se na frente, chicoteia de leve pelos lados e os alazões ganham a estrada.
“Amarrou bem as prendas aqui atrás Rufino?” – indaga dona Célia Hegdorn. “Tudo bem atado, patroa”. E os alazões se vão, potoc, potoc, potoc... ganhando estrada, potoc... - altivos. Já na entrada de Boa Sorte, Ôoo! as prendas oferecidas pelo casal Hegdorn são encaminhadas ao coreto da pracinha da igreja do padroeiro da vila para o leilão em benefício das obras sociais da paróquia.
Os festeiros rodeiam o padre, aguardando instruções sobre a hora em que deve começar o leilão. O padre empina-se para o espaço a fim de ver como está o tempo. “Não vai chover não seu padre”, diz um festeiro. Um foguete chia para os lados da fazenda do dr. Chicão, explode bem no alto. “Podemos lançar os nossos padre?” A um gesto afirmativo, um a um foram subindo os foguetes. Já a essa altura, Clara juntava as Filhas de Maria para a procissão com o andor de Santo Antonio. A banda de música, que viera de Cantagalo, tomava posição, e o maestro levanta a batuta. Ouve-se a música religiosa de estilo, dando início a procissão. O padre a frente, logo atrás dele um convidado ilustre da região segura uma enorme vela. Os acompanhantes seguem entoando: “Oh virgem... queremos Deus, que é o nosso rei, queremos Deus, que é o nosso Pai”... Há um espocar sucessivo de fogos, desenha-se no céu a imagem de Santo Antonio.
Rufino toma umas e outras a um canto da festa, porque nas barraquinhas permitidas pelo pároco, de álcool, só sai quentão. Alguém que já sabe o que Rufino fará traça um círculo no chão para ele pular dentro. E Rufino começa: “Eu nasci de um pingo, de um pingo fui criado... Eu nasci de um pingo”... Mais um foguete sobe... Do coreto, rica peça comprada em Paris, pelo que se ouve aos ombros, oferecimento de dona Berta, é exibida, muitos olhos em cima. O leiloeiro: Uma peça parisiense, da cristaleira de dona Berta. Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Joãozinho de Abreu acompanhava.
Sobe mais um foguete, os cavalos da carruagem relincham, Rufino retira de um saco algo que comer para os alazões. Rufino dá um pouco de feno ao cavalo do padre que prefere voltar montado para Santa Rita do Rio Negro, agora Euclidelândia, homenagem a Euclides da Cunha - a pegar o trem especial que trouxera de Cantagalo a banda de música.
O casal Hegdorn toma sua carruagem, Rufino chicoteia, de leve, para os lados, os alazões e clareia a boca com aquele sorriso de marfim potok... potok... potok...


24 - A onça e os carecas

Só gente de muito longe, de passagem por Cantagalo e pelas bandas de Itaocara, Pádua e outras praças, a acompanhar até de onde se via uma capoeira a linha do trem, não entrava para um corte à vontade do freguês ou pra aparar o cabelo, ou ouvir bons dedos de prosa. De pé na porta de sua barbearia, em Cantagalo, a fim de ver quem era, a navalha fechada na mão, “porque sou louco de arriscar-me a uma briga de navalha?- – dizia com um sorriso a balançar o queixo, e depois de mirar bem o sujeito, se vira para uns três fregueses que o aguardavam: “É um andarilho, que não faz mal a ninguém. Bem, pessoal, quem se anima a caçar ouriço caixeiro? – brinca, a tesoura entre os dedos, atendendo um freguês. Crak, crak, crak... Lacordaire está convidando para uma caçada no matão dos caxinguelês, lá perto do Amazonas, onde Aristides – não foi Aristidinho? – chegou a engatilhar para uma onça que o olhava, tristonha, uma lágrima a cair, e teve pena dela. Crack... crack. Recolheu a espingarda e, para não voltar com as mãos vazias, trouxe de lá um mico.
Zinho Barbeiro ajeita o espelho atrás da cabeça, o freguês aprova sem deixar de perguntar se era mesmo verdade aquela história do tapete voador.” isso é do tempo em que seu Euclides Santana e outros caçadores de boa mira da nossa Cidade dos Melros atravessavam noites arranchados numa clareira matando muriçocas enquanto não vinha o sono”, observa Zinho Barbeiro. Crack, crack, crack...
“Zinho! A Festa dos Carecas tá chegando. Vem gente de longe, como das outras vezes”, um freguês careca-senior alisa a cadeira por baixo. “É...”, Zinho devolve. Mas a minha freguesia com poucos cabelos vai continuar precisando de se livrar dos cabelinhos no nariz e nas orelhas, além de acertar as sobrancelhas. Quanto ao Aristidinho, com este cabelo de galã de cinema, está fora da festa” ...crack.
A Festa dos Carecas é das mais tradicionais do Centro-Norte fluminense. Em seguida vêm os festejos da famosa Exposição Agro-Pecuária de Cordeiro, uma cidade cujos moradores sempre andaram às turras com os de Cantagalo, e vice-versa, por causa de futebol. Saíam no braço antes e depois do jogo. Trem especial fazia o retorno da torcida e dos jogadores, dependendo de onde se ferira a partida, a Cantagalo, onde o expresso chegava de viés esperando-0 o agente seu Falcão com dona Mabília atrás de de um tabuleiro na janela da estação, a servir café com bolinhos, e a Cordeiro, ponto de almoço farto no meio da tarde, coincidindo com a hora do trem.
Mais assunto para a barbearia, à qual não faltava aquela revistinha A Careta, de crítica política e versos de Bastos Tigre. Indispensável àquele tempo numa barbearia que se prezasse, tanto quanto, hoje, o noticiário esportivo.
“Zinho!” – um freguês chegara há pouco, a Festa dos Carecas deve ter sido criada com os primeiros cordões puxados daquela marchinha carnavalesca... À exceção dos cabeludos, na barbearia, em uníssono: “Nós, nós os carecas... com as mulheres somos maiorais”...
“É... Só pode ter sido”, responde o barbeiro.
E o almanaque do Capivarol garantia que o óleo de ovo realizava milagres. Fazia nascer cabelo na mais luzidia das carecas. Havia, porém, carecas que não estavam lá muito preocupados com este detalhe, “pois... na hora do aperto... é dos carecas”...


25 – O golfinho da Barra

Roberta vem cavalgando o seu golfinho por águas da Barra da Tijuca, pára e me pergunta se quero uma carona. Respondo-lhe que fica pesado demais para o golfinho. E ela: “Nada disso, porque daqui a pouco, você verá, ele estará com um corpo proporcional ao nosso!” Estala-me cá dentro uma exclamação de certa incredulidade. Em todo caso, espero. Num estalar de dedos, eis o golfinho já de nosso tamanho, ou quase, Roberta deixa cair um braço como me convidando a subir e seguro-me em sua cintura, como faria se minha golfinista estivesse no selim de uma moto.
“Legal!” - uma menina a olhar a cena com muito interesse aplaudia... “Nunca a vi por aqui”, diz Roberta, descendo do golfinho, e a acompanho. A menina corre em nossa direção. Aperta, primeiro, a mão de Roberta e logo se identifica: “Lá onde moro, chamam-me de Cacau, mas meu nome mesmo é Claudiane”. “E onde mora?” – indaga Roberta. “Em Maringá, Estado de Mato Grosso”. Carol, voltando do banco em que trabalha, cantarola: “Maringá.... Maringá... la-la-ri do meu sertão”... “Falam que essa música é bem antigona – diz Cacau - mas ainda cantam muito ela por lá”
A garota aponta para mais adiante de onde estávamos: “São os meus pais”. Estirados sobre toalhas na areia, acenam para a gente.
“Oi, mãe! Oi, pai! Encontrei o Fernando Henriques!”
“Quem?”
“Fernando Henriques, o do blog!”
“Ah, sim! Muito prazer!” – diz a mulher, erguendo a cabeça para estirar-se de novo.
Estavam passando dias na Barra. “Alugamos uma casa bem perto daqui; daqui se vê” – Claudiane mostra. E Roberta: “Quer dizer que somos vizinhos de temporada”.
“Vocês moram aqui também? Ou estão a passeio, como nós?”
“Eu e Carol, aquela moça ali, moramos na terceira casa após a sua”.
A menina quis saber como veio parar ali na Barra o golfinho fantástico.
“Ele veio no tempo – respondo – de muitas e muitas luas, de muitas décadas atrás. Ele vem denunciar essa poluição... – Cacau não entendeu bem. – Todo esse lixo que jogam na água e vem sujando, envenenando a Baía de Guanabara, cada vez em maior volume de sujeira, acabando com os nossos peixes, tendo já acabado com os nossos golfinhos”.
“Quer dizer que eles existiram mesmo!” – Cacau se coça atrás da orelha.
“Sim, Cacau”, respondo. ”Não eram como nosso golfinho fantástico, que existe só enquanto o vemos e sentimos. Ao pormos os pés fora da praia, ele... pluft!”.
“Some!”
“Isso. Já aqueles que brincavam saltitantes sobre as águas em piruetas de palhacinhos de circo para quem passava de barca entre o Rio e Niterói...”
“Não existem mais, não é Fernando Henriques? O que é pena”.
“Mas jamais deixarão de existir em nossa lembrança, em nosso passado”... Cacau pega no braço de Roberta: “Tenho uma surpresa pra você. Olhe!”. Era uma foto de Roberta a cavalgar o golfinho fantástico da Barra. A mãe de Cacau já recolhendo as toalhas a chama.
“Estou indo, mãe!”. E virando-se para Roberta: “Pego depois com você a minha câmera, tchau!”


26 - A garrafinha e as três bicas

Meu primeiro vôo de helicóptero era pilotado por uma jovem aluna de um aero clube de Niterói, quando pelos nossos ares cruzavam pipas e não balas de metralhadora, o vento das hélices a espalhar crianças à saída de escolas. Era uma reportagem minha e de Lívio Campos, dele a cobertura fotográfica, para o diário O Estado, empresa coirmã do vespertino A Noite. Sobrevoamos em céu de brigadeiro bairros e morros da “banda d´além” da Baía de Guanabara, O Estado foi o jornal em que conheci Eduardo Santamaria, secretário de redação, Hesíodo de Castro Alves, Heitor Gurgel, que se dividia entre O Estado e A Noite. Pouco antes, quando ainda procurava fazer-me jornalista, inscrevi-me no Concurso do Conto Curto promovido pelo suplemento literário Prosa $ Verso, encartado naquele matutino e dirigido por Marcos Almir Madeira e Sávio Soares de Sousa. Juntara-se a essa promoção a Livraria Ideal, de Mônaco Silvestre. Ganhei o concurso com o conto Maneco Antes das Eleições. Algum tempo depois, sai de circulação O Estado, e o suplemento Prosa & Verso passa a ser editado por O Fluminense, órgão sob a direção de Alberto Francisco Torres, que era também seu proprietário.
E que dizer do Diário do Povo, que, falava-se, lhe deram sumiço para encobrir sonegação fiscal? Quanto a mim, entretanto, não tenho do que me queixar da folha de José de Mattos, muito bem editada, por sinal, tendo García como secretário dos mais competentes, ainda vivendo a era da caneta e das aparas de papel de que se servia para as titulações e as próprias matérias que redigia. Facto é que foi o Diário do Povo o primeiro a abrir espaço para que eu mantivesse uma coluna política no segundo caderno até o dia em que a Coca-Cola decide pôr fim às minhas críticas, de pernas curtas, à política internacional tal como estava sendo conduzida pelos Estados Unidos da América. Isto, abrindo seu cofre à propagada do refrigerante no Diário do Povo. A minha coluna tinha por título “Por trás Chapinha” e era ilustrada por Aurélio Zaluar. Do outro lado da chapinha, ao contrário do mundo de coisas boas”, como constava no anúncio imperialista, eu mostrava as mazelas do capitalismo, Vez e outra, saía na “Imprensa Popular uma nota sobre assunto abordado na coluna. Até me levarem, sem que eu soubesse, a um depósito da Coca-Cola que estavam inaugurando em Niterói. Mal cheguei lá, puseram em minhas mãos uma garrafinha de Coca-Cola. Tomei, constrangido, um gole e na primeira oportunidade, enquanto discursavam, deixei cair a garrafinha numa lixeira.
Nada recebia por aquela coluna em remuneração, mas ela abria degraus, como O Estado, com a diferença de que este pagava-me regularmente, a fim de que galgasse a imprensa carioca.
E José de Mattos? Figura curiosíssima, de um lado, e, de outro, um empreendedor, sem dúvida, conforme os costumes da terra. Certa ocasião, o seu jornal amanhece brandindo a seguinte manchete: ‘Lealdino Alcântara, um machão na Prefeitura de Niterói”.
A manchete valia quanto pesava.
Ah meu primeiro vôo... De não esquecer, também, a viagem de teco-teco, já na era JK, de Goiânia até ao Planalto Central antes da construção de Brasília, com pernoite na colonialíssima Luziânia, cidadezinha que exibia uma fonte de água de que o povo tanto se ufanava, por sua cristalinidade. Quem bebe desta água das três bicas, dizia, estufando-se, um menino da divisa de Luziânia com solo das Minas Gerais, aqui fica!